Na próxima sexta-feira

Na próxima sexta-feira

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Bia e Caio estavam morando juntos há quase três anos. Depois de um começo de namoro excepcional, regado a muito álcool, sexo e rock ‘n’ roll, perceberam que a relação estava indo ladeira abaixo. As conversas tornaram-se raras, o sexo já não era o mesmo (isso quando tinha sexo), as músicas já não faziam sentido, e nem uma bebidinha levantava os ânimos. Enfim, eram mais amigos do que amantes. 

Bia era a mais sossegada. Na verdade, até gostava da vidinha parada que estavam tendo. Claro que sentia falta do romance, do amor caliente, mas para ela, o mais importante era ficar com o homem que amava. Caio, por outro lado, não aceitava o ócio. Amava sua namorada, mas sentia saudade das baladas e dá época em que pegava várias garotas. Tinha uma ideia em mente, mas sentia que a Bia jamais concordaria. Depois de dois meses criando coragem, soltou: 

 – Bia, acho que deveríamos ter uma relação mais aberta.

– Como assim? Não entendi.

– Eu te amo. Mas acho que nosso relacionamento está desgastado. Deveríamos nos relacionar com outras pessoas.

– Você quer dizer, fazer um ménage?

– Não, não. Quero dizer que deveríamos sair sozinhos para ficar com outras pessoas. Por exemplo: poderíamos reservar um dia da semana para eu sair com quem eu quiser e você idem.

– Caio, fala sério. Você conheceu alguém e quer me deixar? Ou isso é só uma desculpa para pular a cerca?

– Não, meu amor. Não conheci ninguém. E acredito que não será traição, já que seria com o consentimento de ambos. Além do mais, isso acabaria apimentando nossa relação, pois quebraríamos a rotina.

– Você acha que esta é a solução para apimentar nosso namoro?

– Acho.

– Então, tudo bem.

– O quê? Tudo bem… Tudo bem?

– É, tudo bem. Mas vamos ter regras. Primeira regra: não quero saber com quem você vai sair e você não vai saber com quem eu vou sair.

– Concordo.

– Segunda regra: não quero que ninguém me encontre na balada com outra pessoa. Não quero ficar mal falada. Então, se eu ficar com alguém, vai ser aqui em casa. Você pode levar suas “amigas” para um motel, mas não te quero desfilando com ninguém nos lugares que frequentamos.

– Ok. Mas não vá usar nossa cama.

– Certo. Eu usarei o quarto de hóspedes. Terceira e última regra: Sem ciúmes e sem perguntas.

– Beleza. Sem ciúmes e sem perguntas. Espera aí. Tenho uma pergunta: Quando começamos?

– Não sei. O que acha de começarmos na próxima sexta-feira?

– Daqui a três dias? Tudo bem. Fechado. Você vai ver que nosso relacionamento vai melhorar.

– Sei… 

Bia deu um sorriso sem graça e foi para o quarto. “Desgraçado, maldito, filho de uma quenga dos infernos. Você vai ver o que eu vou aprontar seu traidor de uma figa”, resmungou sozinha. 

Caio disfarçou a euforia e foi para o escritório. Ainda não acreditava que a Bia tinha aceitado. Se soubesse que ia ser tão fácil, não tinha esperado dois meses para fazer a proposta. No fundo, queria se dar bem, e se iludia achando que a namorada não ia ter coragem de ficar com outro cara. 

Como não tinha muito tempo para dar uma de Dom Juan, Caio resolveu apelar para as ex-namoradas. Já tinha uma lista em mente, então entrou no Facebook e começou a seleção. 

Primeira opção: Manuela. “Hum… levei esta no baile de formatura. Era bem gostosinha, mas agora, está um bujão. Não rola.” 

Segunda opção: Patrícia. “Demos uns amassos no carro do pai dela. Ótima alternativa, se ela não estivesse casada e com três filhos. Caramba, três filhos? No way.” 

Terceira opção: Rose. “Ah… boas lembranças. Esta foi a primeira mina que eu beijei que usava piercing na língua. Ainda lembro da sensação gostosa que tive. Acho que vou mandar uma mensagem. Espera aí. Rose mantém relacionamento sério com Roberta. Roberta? Que bosta. Deixa pra lá. Ela pode querer enfiar o dedo onde não deve.” 

Quarta opção: Jaqueline. “Que mulata! Jamais vou esquecer aquele carnaval que passamos em Salvador. É… pena que ela está morando nos EUA. Será que ela voltaria ao Brasil para sair comigo na sexta-feira? Acho que não. Próxima.”

Quinta opção: Renata. “Loirinha safada. Ops! Virou atriz pornô. Bem, acho que é uma boa. Coisa rápida, sem compromisso. Acho que rola… deixa eu pesquisar no Google. Caramba, que fotos são essas? Seis caras ao mesmo tempo? Recorde de transas no mesmo filme… Meu velho, que posição é esta? Deixa pra lá. Muito Punk.” 

Sexta e última opção: Vanessa. “Esta sempre foi apaixonada por mim. Chorou quando ficou sabendo que eu ia morar com a Bia. Deixa eu ver: solteira, estudando história na USP, pelas fotos continua gatinha e, para facilitar, está on line. Acho que é ela.” 

Mensagem: 

Caio: Oi Van. Qto tempo? Td bem com vc?

VanGatinha: Caio? Que surpresa. Tá td OK. E vc?

Caio: Tô de boa. Cê tá a fim de sair na sexta, para relembrar os velhos tempos?

VanGatinha: Claro.

Caio: Blz. Ainda mora com seus pais?

VanGatinha: Moro.

Caio: Então tá. Te pego às 20h.

VanGatinha: Blz. Bjão! 😉

 Caio: Bjo! 

“Ah ha! Me dei bem. Vou tirar o atraso, uô, ô, ô, ô, ô …”, comemorou baixinho. 

Três dias depois. 

Caio, meio que desconfiado, foi se despedir de Bia. “Tchau, amor. Volto pela manhã.” 

Bia, aparentemente sóbria e sorridente, se despede. “Bom passeio. Não me liga, pois estarei ocupada.” 

Enquanto o parceiro sai para sua aventura amorosa, Bia desiludida liga para um amigo. 

Caio pegou o carro e seguiu para o encontro. Quando se aproximou da casa da ex-namorada sentiu um aperto no coração e começou a ficar ofegante. Pronto! Caiu na real. Em poucos minutos sua mulher estaria dormindo com outro cara. Um estranho. Ou pior. Um amigo deles. Afinal, Bia era uma gata, e seus amigos sempre babaram por ela. “Que merda que eu fiz?”, pensou. 

Desesperado, Caio pegou o celular e ligou para Bia. Ela não atendeu. “Que droga. Ela já deve estar com o cara. Só pode ser um amante, por isso ela aceitou tão fácil. Já devia estar me traindo. Aquela desgraçada, traidora de uma figa…” – Chorando e completamente arrependido, ele fez o retorno e dirigiu de volta pra casa. 

Quando Caio chegou, jogou o carro em cima da calçada e correu em direção à porta, que estava trancada. Enquanto pegava as chaves no bolso, gritava o nome da namorada, que não respondia. Suas mãos estavam trêmulas, o que dificultou abrir a fechadura. Quando enfim abriu a porta, encontrou a casa vazia. Subiu para o quarto e viu que a cama estava arrumada, olhou no banheiro e percebeu que o azulejo ainda estava úmido, mas nem sinal dela. Andou em direção ao quarto de hóspedes. Lembrou que pediu para Bia preservar a cama deles e voltou a chorar. Com certeza ela estava no quarto de hóspedes. Abriu a porta com tudo e… nada. Ela não estava lá. 

Uma hora depois, Bia chegou em casa com os olhos vermelhos. Viu que Caio deixou o carro jogado na calçada e ficou preocupada. Subiu correndo para o quarto e encontrou o namorado sentado no chão com as mãos nos olhos. 

– Caio? O que você está fazendo aí no chão.

– Meu amor, me desculpa!? Eu juro que não fiz nada. Eu saí, mas no meio do caminho percebi que foi uma péssima ideia. Não preciso e não quero sair com outras mulheres. Só quero você. Você acredita? 

Sem falar nada, Bia estende a mão e ajuda o namorado a se levantar. Dá-lhe um beijo e o arrasta para cama. Tira sua roupa e faz amor com o homem que escolheu para ficar o resto da vida. Há muito tempo não faziam amor com tanta intensidade. 

– Te amo, Caio!

– Também te amo.

– Vamos fingir que nada aconteceu. Fingir que esta ideia louca nunca passou por nossas cabeças. Tudo bem?

– Tudo bem. Prometo nunca mais tocar neste assunto.

– Combinado. Boa noite!

– Boa noite! Sonhe com os anjos. 

Caio se virou e dormiu. Bia ficou acordada olhando para o teto. Pensava na atitude do namorado, quando percebeu o celular brilhando no criado mudo. Estava tarde. Ainda bem que o deixou no modo silencioso. 

Uma mensagem não lida. 

Oi Bia! Que pena que você desistiu. Ainda estou sentindo o gosto do seu beijo. Espero que mude de ideia. Se precisar de um parceiro, me liga. Boa noite… 

“Nunca mais.” Bia apaga a mensagem, vira de lado, abraça o namorado e dorme.

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Mudança de hábitos

Mudança de Hábitos

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Pablo era um homem exemplar. Funcionário padrão, em cinco anos de empresa nunca faltou ou chegou atrasado. Fazia tudo que era pedido e ainda auxiliava seus colegas com déficit intelectual.  Nunca foi promovido, pois, segundo a chefia, sua posição no escritório era estratégica. Ninguém fazia planilhas e respondia e-mails com a mesma qualidade que ele.

Na vida pessoal era um filho presente, marido fiel e amigo para os momentos difíceis. Sempre que alguém queria desabafar, lá estava ele, firme, compreensivo. Nunca negou um centavo quando lhe foi pedido empréstimos. Religioso, frequentava a igreja todos os domingos. Sempre depositava seu dizimo e agradecia a Deus por ser um homem tão abençoado. Orava por sua família, por seus amigos, por sua amada esposa, por seu emprego. Sem sombra de dúvida, Pablo era um homem bom.

Era.

Certo dia, Pablo olhou para o relógio, faltava três horas para acabar seu expediente. Levantou da cadeira, desligou seu computador, pegou sua mochila e caminhou em direção a sala do chefe. Bateu na porta, foi autorizado a entrar. Seu chefe pediu um momento, pois estava numa ligação importante. Pablo esperou eternos 10 segundos e foi embora. Sem paciência para esperar o elevador, desceu treze lances de escada, o equivalente a 390 degraus.

Saindo do prédio, caminhou até o metrô São Bento (tinha carro, mas era um cara que pensava no meio-ambiente), mas antes, fez um pit stop no banco Itaú, onde encerrou sua conta, sacando todo dinheiro que havia juntado para comprar uma nova casa. Quarenta minutos depois, chegou em casa. Sua mulher levou um susto quando ele abriu a porta. Ele a olhou nos olhos e respirou fundo, soltou a mochila no chão, relaxou o braço direito, virou o corpo levemente para o lado, e num rápido movimento, saudou-lhe com um tapa no meio da cara.

Pablo deixou a mulher estendia no chão, andou até o quarto, abriu o armário e colocou algumas roupas na mochila. Seguiu para cozinha, pegou duas garrafinhas de água mineral na geladeira e saiu de casa. Pegou o carro na garagem, um Eco Sport seminovo, e dirigiu sem rumo. Durante sua jornada, avistou um pequeno hotel de estrada e resolveu parar. Umas garotas faziam ponto em frente à espelunca. Ele escolheu a que parecia mais limpa e a levou para o quarto. Era a primeira vez que dormia com uma prostituta. Duas horas depois a dispensou. Estava com sono.

Pablo encostou a cabeça no travesseiro e olhou para o teto. Não ficou pensando no que deixou para trás, e nem no que faria dali por diante. Sabia que sua vida mudaria radicalmente. Mas não estava nem aí. Queria apenas encontrar a paz verdadeira. Fechou os olhos e rezou seu último Pai Nosso.

Ao acordar, Pablo se lembrou de um sonho que teve, e um pensamento ficou martelando sua cabeça: “encontre a Morte.” Mas como? Não sabia nenhum ritual, nunca foi ligado em magia. Não fazia ideia de como encontrar com a Maldita. Até que se recordou de um seriado que assistiu algumas vezes, onde dois irmãos evocavam demônios em uma encruzilhada. Como era mesmo o nome deles? Ah, irmãos Winchester.

Como Pablo não conhecia nenhuma encruzilhada demoníaca, pegou seu carro e seguiu para o único lugar que lhe veio à mente: cruzamento da Avenida Ipiranga com a Avenida São João.  Parou o carro no meio do cruzamento. Em um segundo, buzinas agrediam os tímpanos alheios. Pablo pensou em acender o pisca alerta, mas logo se deu conta de que se queria encontrar a morte, esta não era uma boa ideia. Pegou uma garrafinha de água mineral que estava jogada no banco do passageiro e deu um gole. Achava que seria seu último e não queria morrer com sede. Abriu a porta do carro, deu três passos em direção ao meio da rua, estendeu os braços para o céu e esperou para ser atingido. Carros frearam bruscamente, pedestres gritaram e uma batida aconteceu ao lado de Pablo, mas nenhum veículo o tocou. Um vento forte soprou em sua direção. “É ela”, ele pensou. Olhou para os lados, e nada. Olhou para o céu, e nada. Pensou em se jogar na frente de um carro, mas o vento soprou ainda mais forte e trouxe uma mensagem: “Não é assim que você vai me ver.”

Pablo sorriu. Entrou no carro e foi embora antes que a polícia chegasse. Já sabia o que tinha que fazer.

Longe do centro da cidade, Pablo entrou em uma concessionária e vendeu seu carro pela metade do preço de tabela. Colocou o dinheiro na mochila junto com o resto de suas economias. Seguiu a pé para uma favela na zona norte da cidade, conversou com alguns locais e de lá saiu com um Opala Preto e uma arma. Dirigiu novamente para o centro da cidade. Parou o novo carro, com placa fria, na região da “Cracolândia”. Observou que jovens e crianças se drogavam sem a mínima noção do que estava acontecendo ao redor. Percebeu que nenhum policial fazia ronda naquele pedaço de terra ignorado pela sociedade. Viu um traficante passando uma pedra de crack para um garoto que não aparentava ter mais do que 10 anos. Ligou o carro e seguiu na direção do traficante. Abaixou o vidro, o homem se aproximou. Tinha o rosto pálido, a barba por fazer e um olhar irritante. Aquele olhar…

Pablo fez um gesto para o homem chegar mais perto, quando ele se debruçou sobre a porta do carro, tomou um susto. Um único disparo e a multidão que tomava à calçada começou a correr. Cachimbos de crack caiam no chão ao mesmo tempo em que o corpo do traficante tombava. Pablo calmamente abriu a porta do carro e agachou ao lado do corpo. O homem ainda estava de olhos abertos. Ele o encarou e imediatamente sentiu um êxtase. Os pelos do seu corpo se arrepiaram. Sentiu o vento batendo em seu rosto. Paz. Aquele olhar irritante do traficante transformou-se em um olhar vazio. A morte. Pablo sorriu. Enfim se encontrou com a Morte.

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O quarto

 

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O quarto é frio e úmido

A cama treme em desespero 

Da parede, um ruído que evito escutar 

O quarto é sempre escuro 

De vez em quando 

Um raio de luz entra por um vão e fere meus olhos 

O quarto é calmo 

E a calmaria me sufoca 

Um presídio sem portas

O quarto é grande e a cela está vazia 

A prisão já foi um carma 

Hoje é só o dia-a-dia

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Cobertores

Modelo: Luis Antonio Sabino / Foto: Rony Costa

Nossos pais são como cobertores,

Que nos aquecem quando somos pequenos.

Dividimos a mesma coberta.

Pouco depois, ganhamos a nossa,

Mas eles fazem questão de nos cobrir.

Só que nós vamos crescendo,

E crescendo…

E os cobertores vão ficando cada vez menores.

Ou cobrem os pés, ou a cabeça.

Chega uma hora

Que os cobertores não nos cobrem mais.

Agora me sinto assim,

Meio que descoberto.

Sinto saudade do calor e do aconchego

Dos meus cobertores.

Sinto saudade dos meus pais.

 

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Meu último amor

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A melhor mulher do mundo: tudo o que ela faz é gostoso

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Paula está em casa, ansiosa. Seu marido vai trabalhar até tarde, então é o momento certo para preparar aquela farra. Ela arruma a casa, veste um vestido espetacular, aquele modelo que toda mulher deixa guardado para ocasiões especiais, coloca uma garrafa de vinho para gelar e separa algumas velas. Velas são importantes nessas ocasiões, pois preparam aquele clima.

Depois de um longo tempo de espera, a campainha toca.

“Ricardo, até que enfim. Se você demorasse mais era capaz dele pegar a gente no flagra. Entra logo.”

 “Hum… o que é isso? Nossa, que grande. Onde eu posso colocar? Deixa eu ver…  aqui embaixo? Não sei, é muito grande. Acho que não consigo esconder. Vou colocar lá atrás. O espaço é apertado, mas acho que encaixa.”

“Vamos pra cozinha, tem um vinho na geladeira.”

“Hey!? Tira a mão daí. Agora não. Para de ser apressadinho. O quê?… Não, de jeito nenhum… Tá bom, tá bom… mas não lambe, pois se ficar melado, com certeza ele vai perceber. Acha que ele é bobo? Faz o seguinte: enfia o dedo aqui embaixo, mas bem de leve. Isso…”

“Hum… tá gostoso, né? Eu sei, eu sei. Tudo o que eu faço é gostoso. Mas para. Não enfia o dedo até o fundo, pois você vai estragar tudo.”

O telefone toca.

“Oi Bruna! Tá subindo? Ok. Vou abrir a porta.”

Dois minutos depois.

“Bruninha… agora sim a festa está completa. O Ricardo está lá na cozinha. Abri um vinho geladinho. As velas estão no esquema, é só acender. Mas vamos com calma. O Ricardo comilão já estava enfiando o dedo e querendo lamber tudo, mas eu disse para ele se controlar.”

“O quê? Não Bruna, não dá. O Ricardo colocou o dedo de enxerido. Se você colocar também pode ficar feio. Sim, claro que estou com pressa. Daqui a pouco ele chega e não quero que ele nos dê o flagrante.”

“Bruna, não faz essa cara. Quer um beijinho. Eu dou, mas, por favor, não enfia o dedo aí… Ah… tá bom. Mas não coloca no mesmo buraco. Enfia no lado de trás, mas com calma. Não é para deixar tudo estourado”

“Hum… eu sei que é gostoso. Já falei pro Ricardo o que tudo que eu faço é gostoso.”

“Melhor nos irmos pra sala. Ricardo, pega as coisas para agilizarmos. Bruninha, você acende as velas, enquanto completo as taças de vinho.”

Um barulho na porta.

Sussurro: “Droga, droga. É ele. Corre vocês dois, se escondam. Rápido.”

O marido abre a porta bem devagar. Percebe algumas velas acesas e sente que algo está errado.

“SURPRESA”

“Ah… se não é minha esposa amada e meu casal de amigos favorito. Obrigado gente. Não precisava de festa. Vocês sabem que não gosto de ficar velho.”

“O que é isso? Hum… que bolo bonito. Aposto que foi a Paula que fez. Tudo o que ela faz é gostoso. Mas vocês não me enganam. Quem é que foi que enfiou os dedos aqui e aqui? Já comeram beijinho também, né? Adoro beijinho.”

“Nossa… que caixa grande. Como vocês conseguiram encaixar isso aí atrás? O que é? Caramba, uma TV nova. Obrigado gente. Vocês são demais.”

“Amor, você está linda neste vestido. Me dá um pouco deste vinho que vocês estão tomando.”

“Sem dúvida este foi o melhor aniversário de todos. E minha mulher, com certeza, é a melhor mulher do mundo.”

Apagam-se as velas.

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Pequenas mentiras, grandes amores

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Léo e Bia se conheceram graças a palhaçada de um amigo em comum, que tinha aprontado com a irmã dela, e resolveu se desculpar com um telefonema. 

Trimmm… trimmmm… 

(Amigo e Bia)

– Alô.

– Bia? Deixa eu falar com sua irmã.

– Ela não está.

– Bia, me deixa falar com ela. Fala pra sua irmã me perdoar, diz que eu mudei. Diz que eu nunca mais vou beber. Fala pra ela me perdoar.

– Para de mentira. Você não tem jeito.

– É sério. Eu juro. Fala aqui com meu amigo, que ele vai te confirmar. 

(Léo e Bia)

– Alô. Quem é?

– Bia. E você?

– Eu sou o Léo. Olha Bia. Ele parou de beber mesmo (faz uns dois minutos). Vive falando da sua irmã (quem diabos é essa mina?). Ele gosta dela de verdade (tanto quanto gosta da própria mulher).

– Mentira. Conheço ele há anos. Esse cara não tem jeito.

– Tem sim, tem sim.

– Tá bom. Vou fingir que acredito. E você bebe?

– Eu? (muito) Não, não. De vez em quando tomo uma coisinha com os amigos (três garrafas de vinho nas últimas duas horas).

– Legal. Não gosto de homem que bebe.

– Nem eu (só mulher que bebe. São mais fáceis). Bêbados são muito chatos (droga, o vinho tá acabando).

– Me fala um pouco de você.

– Bem, eu estava morando em Florianópolis. Voltei pra São Paulo faz uma semana. Sou cabeludo, gosto de rock e… acho que é isso. (Ah, eu sou alcoólatra). E você?

– Eu sou morena, tenho o cabelo liso (alisado), não sou muito alta (bem baixinha). Sei lá, não me acho muito bonita. Ah, também gosto de rock.

– Sei. Por que não marcamos de nos encontrar?

– Pode ser.

– Legal. Combinado. 

Uma semana depois. 

Bia indo para o encontro: “Caramba! Ele é cabeludo, morava em Floripa. Só pode ser surfista.” 

Léo indo para o encontro: “Putz. Ela não gosta de cara que bebe. Será que estou com bafo de cerveja? Hum… se ela disse que não se acha bonita é porque deve ser. Bem que pode ser uma moreninha bem gostosa.” 

Léo chega primeiro. Veste calça, chinelo, camiseta do Pearl Jam, jaqueta de moletom preta e um gorro laranja que parece um cogumelo. Ridículo e se achando. 

Bia se aproxima. Calça branca, para não dizer transparente, camisa do Corinthians e cabelo amarrado (não deu tempo de passar a chapinha). 

Léo: “Caramba, que gostosa. Ainda por cima é corintiana. Ah, São Jorge. É com essa que eu vou.”

Bia: “Vixi… que largado. Será que é ele mesmo?” 

– Oi.

– E aí? Beleza?

– Beleza.

– Corintiana, né?

– É.

– Eu também.

– Legal. Pearl Jam?

– É. Você gosta?

– Gosto (nem conheço). Mas sou louca por Raul Seixas. Você gosta?

– Sim, sim (odeio).

– Surfou muito em Floripa?

– Um pouco (nem louco, não sei nadar). 

Papo vai, papo vem. 

– Preciso ir embora.

– Beleza. Foi um prazer te conhecer. Você é muito bonita.

– Hã… você é legal.

– Valeu (legal o caralho). Vamos marcar de nos ver de novo?

– Quem sabe? Qualquer coisa eu te ligo.

– Beleza. 

Três dias depois.

Segundo encontro. Corinthians campeão da Copa do Brasil. Léo e Bia assistiram ao jogo juntos. Pés-quente. Comemoraram, se abraçaram eeee… e nada. Ela era bonita e ele legal.  Tirando o Timão eles não combinavam. Apenas bons amigos. 

Final de semana.

Terceiro encontro. Cinema. 

– Bia, você gosta de comédia?

– Adoro (nem tanto).

– Tem um filme ótimo passando: “Não é mais um besteirol americano”.

– Legal (que bosta. Ainda bem que ele vai pagar). 

O filme rolando. Léo empolgado. Bia entediada. Ele esperando uma cena de nudez. Ela pensando na possibilidade de beijá-lo. Não poderia ser pior que o filme. Ela segurou a mão dele. Ele nem ligou. Ela se inclinou para beijá-lo, mas ele nem viu. Ele caiu na gargalhada. Ela estava quase chorando de raiva. Fim do filme. As luzes se acendem. Finalmente o primeiro beijo. 

Léo: “Hum… que beijo gostoso.”

Bia: “Hummmm… que beijo mole. Pelo menos ele é corintiano.” 

– E aí? Tá ficando com alguém?

– Não (só com o Rodrigo). Estou solteira. E você?

– Não (só me esqueci de terminar meu namoro com a Gisele). Também estou solteiro.

– Sei. Então é isso. Depois nos falamos.

– Beleza. 

No mesmo dia. 

Bia para Rodrigo: “Amor, não vai mais rolar da gente ficar junto. Quero ficar sozinha por um tempo (até amanhã quando vou ver o Léo de novo). Vai ser melhor assim.” 

Léo para Gisele: “Gi, você sabe que eu te amo. Mas minha mãe está doente, não posso voltar pra Florianópolis e deixar ela (a Bia) sozinha. Você entende né?” 

No dia seguinte. 

– Bia, eu estava pensando…

– Léo, eu também estava pensando… 

Ambos:

– Eu quero ficar com você.

– Só com você.

– Que bom! 

E assim, Bia e Léo começaram a namorar. Estavam completamente apaixonados. Só que com tantas “mentirinhas” o namoro não poderia durar. E não durou. Um mês depois eles se casaram. 

E vocês se perguntam: E as mentiras? Bem, as mentiras fizeram parte do relacionamento, que já dura 10 anos. Algumas vieram à tona, enquanto outras permanecem bem guardadas. Afinal, mentir é humano. Mas o mais importante, é que o amor dos dois é verdadeiro. Inclusive, o amor que ambos sentem pelo Corinthians. 

– Léo, o jantar tá pronto.

– ESTOU VENDO O JOGO.

– Léo, a comida vai esfriar.

– JÁ VOU.

– Léo, você me ama?

– Claro que… GOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLL

– Time de merda… 

Salve São Jorge.

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