Lembrança Amar…ela (parte final)

Neto e Lígia

O telefone tocou. Levantei da cama correndo para atendê-lo. A noite anterior não foi exatamente como eu havia planejado, mas no final, ela pegou o guardanapo com o número do meu telefone. Ela estava acompanhada de outro cara, mas nem isso abalou minha confiança. O telefone estava tocando e eu sabia que minha vida iria mudar no momento em que eu atendesse. 

– Alô!

– Alô, Pedro?

– Isso.

– Oi Pedro. É a Sheila. Tudo bem?

– Oi moça! Tudo bem. E contigo?

– Estou bem. Fiquei preocupada por você ter voltado pra casa sozinho. Devia ter te dado carona.

– Não esquenta. Cheguei de boa.

– Que bom. Deixa eu falar… Achei muito legal o que rolou ontem.

– Eu também.

– Vai fazer o que hoje? Posso dar um pulo na sua casa?

– Pode sim.

Passei o dia inteiro com a Sheila. Conversamos bastante. Beijamos-nos bastante. Ela me explicou porque não ia com a minha cara, porque me chamava de fantasiado. Disse que odiava meu jeito roqueiro de se vestir e meu cabelo ensebado. Só não conseguia explicar como ficou atraída por mim. Acabamos rindo da situação. O problema foi que ela passou tanto tempo lá em casa, que não tive como escondê-la da minha família. Para eles, ela era minha nova namorada. E até poderia ser. Ela era bonita, jeitosa (para não dizer gostosa), inteligente… Mas só tinha um problema. Eu estava apaixonado pela Laura. É… A mesma Laura que pegou meu número de telefone e não ligou.  Talvez por vingança, por eu ter pegado seu número e dado para o Roberto. Será que ia dar meu número para outra garota? Tomará que seja mais bonita que o Beto.

O telefone tocou, mas eu não quis atender. Só podia ser a Sheila. Decidi ficar na cama, pois era o único jeito de não me comprometer. Não adiantava enganá-la. Não queria nada sério. Mas a menina era insistente, e o telefone continuou tocando e tocando… Fui vencido pelo cansaço.

– Alô.

– Oi Pedro!

– Oi Sheila! Tudo bem?

– Quem é Sheila?…

Há tempos não me sentia tão feliz. A Laura me ligou e ficamos horas no telefone. Descobrimos muitas coisas em comum. Trocamos confidencias, revelamos nossos medos, compartilhamos nossos sonhos e trocamos juras de amor. Ela falou que jamais ficaria com o Beto se soubesse que ele tinha namorada. Na verdade, me disse que só lhe beijou uma única vez, e que desde o início queria ficar comigo. Brigou por eu não ter ligado quando ela me deu seu número. Por minha vez, disse que se não tivesse dado seu telefone para o Beto, jamais teríamos esta conversa.

Todos os dias ela me ligava por volta das onze horas da manhã. Sempre para desejar bom dia. Eu ligava novamente por volta das dez horas da noite. Sempre para desejar boa noite. Também nos falávamos durante o dia em horários alternados. Batia a saudade, pegávamos o telefone. É lógico que queríamos nos ver. Mas uma pitada de medo nos impedia. Este ritual durou cerca de duas semanas. Mas quando meu aniversário se aproximou decidimos que era o momento certo. Meu presente seria ela.

Por influência de um amigo, resolvi comemorar meu aniversário num barzinho no bairro do Bixiga. Não conhecia o bar, mas achei uma boa ideia. Combinei de buscá-la em uma rua próxima a sua casa. Como eu não tinha carro, um amigo me deu uma carona. Fiquei encostado no fusca (outro fusca, não o amarelo) ansioso, olhando de um lado para o outro. Meu coração disparou quando a vi se aproximando. Usava calça jeans, sandálias pretas, uma blusinha preta e um gorrinho para esconder os cabelos recém cortados. Ela disse que teve um surto e resolveu passar a máquina quatro na cabeça. Lembrava a cantora Sinéad O’Connor, só que muito mais bonita. Era incrível. Até careca ela era linda.

Me deu um beijo estalado no rosto e um abraço sutil. Confesso que eu esperava algo mais intenso. Um beijo de cinema, um abraço apaixonado. Quem sabe um ‘eu te amo!’. Mas estávamos tensos. Não éramos os mesmos. Éramos estranhos. Por telefone era tudo mais fácil. Apresentei meu amigo e entramos no carro. Ficamos praticamente calados. Eu tentava controlar minha ansiedade e não parecer um bobo.

Quando chegamos ao barzinho, me senti um nada. Todos nos olhavam. Todos cochichavam. Ela era demais para mim. Conforme eu a apresentava para meus amigos, percebia que eles a olhavam com desejo, as meninas a olhavam com desdém. Comecei a ficar desesperado. Logo ela perceberia que eu não era o cara certo para ela. Eu não tinha nada a oferecer. Era um roqueiro pobre, feio, com o cabelo ensebado e as roupas largadas. Naquele bar só tinha playboy. Eu era o estranho no ninho.

Percebendo minha angústia, ela segurou minha mão. Deu um sorriso acolhedor e disse que estava com sede. Pedi duas cervejas. Talvez um pouco de álcool me acalmasse. Não tínhamos o que conversar. Parece que gastamos nosso vocabulário por telefone. Virei minha bebida de uma vez só. Ela pegou um cigarro. Respirei fundo e peguei o isqueiro da mão dela, me oferecendo para acender. Ela se inclinou levemente para frente e, tirando coragem da alma, me inclinei tentando beijá-la. Ela recuou. Por um instante, achei que aquele era o fim. Ela caiu na real e percebeu que merecia um cara melhor. Foi então que ela perguntou.

– Tem certeza que fazer isto?

– Por quê? Você não quer?

– Quero muito. Mas a partir daqui, seu comportamento vai ser meu comportamento. A maneira que você me tratar vai ser a maneira que eu vou te tratar. Tem certeza que você quer fazer isto?

– Tenho.

Ela colocou o cigarro sobre a mesa, se inclinou novamente e nos beijamos. Um beijo apaixonado, intenso como deveria ser. Alguém nos fotografou. O flash registrou aquele momento mágico. A espera havia terminado. Não me importei mais com os outros nos olhando. Ela era minha. Meu mundo nunca mais seria o mesmo. Nunca mais.

Os dias foram passando, e estar com Laura era algo de outro planeta. Tudo que ela fazia era diferente. Seu beijo era diferente, seu toque era diferente, a forma como me olhava era diferente. Era um olhar apaixonado, como nunca uma garota havia me olhado antes. Ela compartilhava seus sentimentos, seus sonhos, suas fantasias. E eu estava sempre disposto a fazer o que ela queria. Ela merecia tudo de bom. Me dava amor, e o mínimo que eu podia fazer era retribuir. Nosso relacionamento era perfeito. Infelizmente, o perfeito estraga.

Depois de nos isolarmos e nos sugarmos ao máximo, decidimos que era hora de dividir nossa felicidade com os amigos. Só que os amigos não queriam ver nossa felicidade. Fofocas e intrigas começaram a fazer parte do nosso cotidiano. E não demorou muito para nosso conto de fadas ir para o espaço.

A noite estava fria. Combinamos de ir para Vila Madalena com alguns amigos mais próximos, entre eles, Roberto e Alessandra, que havia se encantado com a Laura e a tratava como sua nova melhor amiga. O Beto não guardava rancor por eu ter ficado com a Laura. Pelo menos, nunca tínhamos falado sobre o assunto, e tocamos nossas vidas como se nada tivesse acontecido. Até que, entre uma cerveja e outra, Alessandra chamou a Laura para comprar cigarros. Beto se levantou da mesa e saiu. Alguns minutos depois, Laura voltou.

– Quero ir embora.

– O que foi Laura?

– Nunca fui tão humilhada. Vamos embora, por favor.

– Calma. Me diz o que está acontecendo. Por que a Alessandra tá chorando?

– O Roberto resolveu ter uma crise de consciência e contou para Alessandra que a tinha traído comigo. Tentei explicar que não sabia de nada, mas ela me acusou de fingir ser amiga dela, enquanto queria ficar com o Roberto.

– Não acredito.

– Acredite. Seu amigo me humilhou na frente dela. Se vingou por eu ter escolhido ficar com você.

– O Beto não faria isto de propósito.

– Mas fez. Ele não presta. Além de me enganar dizendo que era solteiro, quer estragar meu relacionamento com você. Só você não enxerga. Vamos embora, por favor…

– Claro.

O Sol já estava nascendo quando a deixei em frente ao seu prédio. Pedi desculpas pelo que havia ocorrido. Prometi que nunca mais sairíamos com eles. Voltaríamos a nos isolar e fingiríamos que nada havia acontecido. Éramos felizes sem ninguém por perto. Tudo voltaria ao normal. Ela concordou. Disse que me amava, devolveu a jaqueta que eu tinha lhe emprestado, me beijou delicadamente e me deu um longo abraço. Senti que seria o último. Mas não quis acreditar. “Toma cuidado com seu amigo”, ela disse antes de entrar.

Fui para casa com o coração na mão. Queria matar o Beto. Não entendi porque ele fez isso. Ele era meu melhor amigo. Por que ia querer acabar com meu namoro?  Por que quis magoar a Alessandra? Talvez o fato de elas estarem se dando bem o incomodou. Não tem como saber.

Dormi a manhã inteira, mas quando acordei a primeira coisa que fiz foi ligar para Laura. Queria ter certeza que estávamos bem. 

– Oi princesa! Como você está?

– Péssima. Ontem foi a pior noite da minha vida. Nunca imaginei que passaria tanta vergonha, que seria tão humilhada.

– Imagino. Desculpa, nunca deveríamos ter saído com eles.

– Não tem que se desculpar. Você não tinha como saber que seu amigo era um crápula.

– De qualquer forma, me sinto culpado. Mas vamos nos ver. Ficar juntos é a melhor forma de esquecer tudo isso. Nossa discoteca vai abrir hoje por causa do feriado de 1º de maio. Vamos beber e dançar um pouco.

– Acho melhor não. Estou cansada. Vou ficar em casa com minha mãe, faz tempo que não conversamos. Mas você pode ir.

– Sem você? Não.

– Pode ir. Eu confio. Mas por via das dúvidas, tem sempre alguém te observado por mim. Cuidado…

– Tá bom. Vou ver. De qualquer forma, te ligo depois.

– Combinado. Divirta-se por nós dois. Te amo!

– Também te amo. Bye!

Fui sozinho para discoteca. Como era véspera de feriado, o movimento estava fraco. A maioria das pessoas devia ter ido viajar. Minha amiga do bar estava lá, o que garantiu minha bebedeira gratuita. Queria esquecer a noite anterior na Vila Madalena, e nada melhor do que encher a cara.

Vi poucos rostos conhecidos e não estava no clima para fazer novas amizades. Gastei meu tempo batendo papo com o DJ, e quando já estava decidido a ir embora, ela apareceu. Sheila. Também tinha ido sozinha para a discoteca. Disse que estava entediada e que resolveu arriscar na noite. Sorte minha, pois teria companhia agradável.

Contei que estava namorando. Desculpei-me por não ter ligado mais. Ela disse que tudo bem, que também estava ficando com outro cara, mas que não sabia se era sério. Desejei boa sorte, falei que ela era uma garota muito especial e que merecia o melhor. Ela fez os mesmos votos, só que naquela noite nós éramos os melhores um para o outro. Por ironia, troquei a Sheila pela Laura, e agora estava colocando tudo a perder no sentido inverso.

É lógico que me arrependi. Tentei falar com a Laura assim que cheguei em casa. Mas a mãe dela disse que ela tinha saído com uns amigos. Tentei de novo no dia seguinte, e nada. Eu tinha a perdido. Talvez alguém tivesse me visto com a Sheila e contado para ela. Talvez a humilhação que o Beto a fez passar tenha sido o motivo. Ou simplesmente ela tenha percebido que eu não era o cara certo.

Cheguei a ir ao condomínio onde ela morava. Pelo interfone a mãe dela disse que ela não estava. Convenci o porteiro a me deixar entrar. Bati na porta do apartamento 43 do prédio sul. Eu estava um caco. Mal vestido, cabelo bagunçado, consideravelmente embriagado e acima de tudo, arrependido. Arrependido de ter dado seu telefone aos meus amigos, arrependido de ter a colocado em uma situação constrangedora e arrependido de tê-la traído. Precisava esclarecer tudo. Dona Iara abriu a porta.

– O que você está fazendo aqui? Eu te falei que a Laura saiu.

– Eu sei que ela está aqui. Preciso falar com ela.

– Deixa que quando ela quiser falar com você, ela te procura. Vai embora.

– Por favor, me deixa falar com ela. Eu sei que ela está aqui. Eu amo sua filha.

– Escuta. A Laura saiu com uns amigos. Não sei o que aconteceu entre vocês, só sei que minha filha mudou. Agora ela está querendo voltar à vida que tinha antes. E na vida dela não tinha você.

– Não acredito. LAURA…QUERO FALAR COM VOCÊ. SEI QUE VOCÊ ESTÁ Aí. LAURA…

– Para de gritar. Você vai incomodar os vizinhos. Já disse que ela não está.

Dona Iara bateu a porta na minha cara e naquele momento percebi que realmente era o fim. Nunca mais a vi. Tentei contato outras vezes. Mas ela nunca me atendia. Até a Alessandra tentou me ajudar. Uma vez conseguiu falar com ela. Disse que a Laura estava sofrendo, que gostava muito de mim e que um dia me explicaria tudo. Só que este dia nunca chegou.

Com o tempo seu número de telefone mudou, ela saiu do trabalho e em mais uma tentativa de encontrá-la em seu apartamento, descobri que ela e sua mãe tinham se mudado. Era como se nunca tivessem existido. Depois disso, entrei em uma depressão profunda. Bebia que nem louco, chorava que nem criança. Cheguei até a mudar de cidade. Mas nada me fazia esquecê-la. Tempos depois, o Beto me contou que ela encontrou um ex-namorado enquanto comprava cigarros com a Alessandra, e por isso havia me deixado. Não acreditei. Mas isto explicaria tudo. Nunca saberei a verdade.

Confesso que por anos a procurei pelas ruas. Sempre que eu via uma garota de cabelos curtos imaginava que era ela. Sempre que o telefone tocava, eu atendia acreditando que seria ela. Refiz nossos passos, fui aos lugares que nós frequentávamos, mas ela nunca apareceu. Disse que nunca me abandonaria, mas mentiu. Tudo bem. O tempo passa e a tristeza vai embora.

Gosto de pensar que vivi um sonho. Uma história de amor entre a princesa e o plebeu. É certo que esta história não teve um final feliz, mas isso não quer dizer que a vida tenha que ser infeliz. E se for verdade que só se supera um grande amor com outro grande amor. Então superei. E torço para que a Laura tenha superado. Espero que ela tenha conhecido alguém legal, assim como eu conheci. Alguém para passar o resto da vida, alguém para dividir alegrias e tristezas. Alguém que entenda que fuscas e camisetas amarelas ficam guardados na lembrança, e que saiba que a vida é muito mais colorida.

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7 comentários

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7 responses to “Lembrança Amar…ela (parte final)

  1. Daniele Villarim

    Muita linda esta triste historia de amor e de tão boa que é não pode ficar guardado. São momentos como estes que fazem a nossa historia, e nos preparam para o Amor da Vida inteira!!!!

  2. Lívia

    Ameiii , nossa muito bom irmão.
    Parabéns

  3. Há muito tempo não aproveitava quinze minutos da minha vida tão bem. Li cada frase com aquele gostinho de “quero mais”, torcendo para não chegar ao fim, apreciado cada palavra…
    Agora são cinco e pouco da manhã e devo admitir: meu dia começou cheio de inspiração!
    Parabéns, Neto. Nem preciso falar que sou sua fã, né?
    Beijo grande, amigo!

  4. Liliane Costa

    Mesmo já conhecendo a história, me arrepiei inteira… Gosto da forma como você escreve. As palavras se enchem de uma “verdade descarada”, embriagante, viciante!… Adoro isso! Obriga a gente a quer ler tudo. Descobrir o que se esconde por de trás do universo que existe na mente apaixonada ” dos meninos”. Parabéns lindão! Parece que isso é só o começo…!
    Beija a Dani por mim!

  5. Érica Mendes

    Olá Neto, que história! Li cada texto com euforia de saber o final e como sempre surpreendente, e tão real.. Me fez pensar em várias coisas e confesso como aprendi mtoooo.. Valeu amigo!! Parabéns!!

  6. Faço minhas as palavras da Marina, que história maravilhosa, Parabéns!

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