Aconteceu no elevador (parte final)

Casal no elevador

Reprodução

Fiquei semanas imaginando como seria tê-la em meus braços, pensando se ela sentia algo por mim, fantasiando como seria o primeiro beijo, que, enfim, aconteceu no elevador. Foi um beijo fabuloso, que durou poucos segundos, mas foi o suficiente para inundar minha mente de possibilidades, de incertezas, de ansiedade. Poucos segundos que mudariam nossa rotina. Não tenho certeza se a peguei de surpresa. Prefiro pensar que ela já esperava por isso, que ela desejava que acontecesse. Dúvidas a parte, tive a certeza de que, durante três andares, minha paixão foi correspondida. 

A porta do elevador se abriu, ganhei um sorriso e um aceno com a cabeça para me lembrar que tínhamos que sair. O silêncio que se seguiu indicava que estávamos selando um pacto, e que a partir daquele momento compartilhávamos um grande segredo. O tchau daquela noite também foi dado com um aceno, seria um pecado estragar aquele momento com palavras.

Os dias foram passando, os olhares continuavam, os sorrisinhos foram se intensificando e nossa amizade, agora, era apimentada com idas e vindas no elevador. Sempre o da direita. Era nosso ritual. Por sorte, ou ajuda do destino, ele sempre estava vazio. Também dávamos nossa contribuição, demorando alguns minutos para ir embora. Conhecíamos a rotina dos colegas de trabalho, então era mais fácil dar um perdido. 

A vontade que eu tinha de largar o emprego foi substituída por uma vontade louca de crescer dentro da empresa. Entre um olhar e outro, eu desenvolvi campanhas que dariam muito lucro à agência. Nos corredores já corriam os rumores de uma possível promoção. Fiquei empolgadíssimo, mas nada me deixava mais feliz do que estar com ela. Minha inspiração vinha dela. 

Chegamos a uma fase em que o elevador não era o suficiente. Passamos a nos beijar nos corredores, no refeitório, na sala de arquivo, no banheiro… Enfim, em qualquer lugar que encontrássemos vazio por determinado tempo. É lógico que tínhamos medo de ser pegos. Mas acho que isso nos deixava ainda mais excitados. Sempre que possível, também nos encontrávamos fora da empresa. Parecíamos namorados, trocávamos presentes, bilhetes, mensagens de texto. Tudo o que um casal apaixonado faz no começo de um relacionamento. Falávamos sobre quase tudo. Com exceção de um pequeno detalhe: ela continuava noiva. 

Eu tinha medo de falar a respeito, não queria pressioná-la e colocar em risco o nosso romance. Eu precisava daquilo, não queria perdê-la, mesmo que isso significasse ser o outro. No fundo, eu tinha esperança que, entre o terceiro andar e o térreo, ela dissesse que me amava e que ficaria apenas comigo. 

Faltando um mês para seu casamento, meu sentimento de euforia se transformou em desespero. E tudo piorou quando fomos flagrados por um colega de trabalho. Um cara que trabalhava no administrativo, que fica no 13º andar, e que de vez em quando descia até nosso piso para recolher alguns documentos. Ele era meio esquisito. Estava há anos na agência, mas não conseguia ser promovido. Ele nos viu juntos em uma rua próxima a empresa. Passou por nós, fez cara de surpreso, deu um sorriso sem graça e continuou andando. Ficamos desesperados. Como podíamos ter dado um vacilo tão grande? 

Quando entramos na empresa achando que seriamos interrogados, nos surpreendemos. Nada estava diferente. Ninguém nos olhou torto, não percebemos nenhuma fofoca que nos incluísse. Bem, nosso colega era um cara que sabia guardar segredo. Na verdade, aquele foi o último dia que o vi. Fiquei sabendo que, sem mais nem menos, ele juntou suas coisas, entrou na sala do chefe e em menos de 10 segundos foi embora sem dar satisfação. Ouvi dizer que ele surtou. Parece que limpou a conta no banco, bateu na mulher e sumiu no mundo. Deve ser fofoca. O que sei é que depois do flagrante que ele nos deu, passamos a ser mais cuidadosos. 

Três dias depois, uma nova surpresa. 

Saímos do elevador e seguimos pelo corredor em direção à rua, tínhamos combinado de comprar um vinho e depois irmos para minha casa. Mas, assim que pisamos na calçada, perdi o chão. Um rapaz moreno a esperava com um buquê de flores. Ela deu um gritinho mascarado de alegria e surpresa, enquanto suas bochechas ficavam vermelhas de vergonha. Um rápido olhar suplicou para que eu sumisse dali. Foi o que fiz, logo após ver o cara tocando os lábios que a pouco pertenciam aos meus lábios. Senti-me um nada. 

No dia seguinte, as coisas mudaram. Os olhares cessaram, os sorrisos se esconderam, a euforia virou desespero. A ficha caiu. O noivo, que até então era apenas uma figura folclórica (o corno), deu as caras e me mostrou que era real. 

Acho que a vergonha a fez se afastar de mim. Mas talvez ela apenas tenha percebido que cometeu um grande erro. Como poderia trair o noivo nas vésperas do casamento? Eu deveria estar cheio de culpa, mas não estava. Eu a queria pra mim. Eu queria beijá-la, abraçá-la, dizer que eu era o homem certo para ela. Dizer que eu estava apaixonado e que ela deveria se casar comigo, e não com aquele cara que dá flores de presente. Eu precisava de uma oportunidade para lhe dizer tudo isso, e a oportunidade veio quando a bexiga dela apertou. 

 – Você é louco? Se o chefe ver que você entrou no banheiro feminino você é mandado embora.

– Não faz mal. Eu preciso falar com você.

– Então fecha a porta e fala. Seu bobo…

– Por que você está diferente comigo?

– Não estou.

– Está sim. É por causa do seu noivo? Porque eu não ligo. Quero ficar com você. Não importa que você vai se casar. Na verdade, eu quero que você case comigo.

– Realmente você está louco. Não posso me casar com você, nós mal nos conhecemos. E tem outra. Eu não posso fazer isto com ele. Estamos juntos há muito tempo.

– O tempo não importa. Se você fosse feliz com ele não tinha ficado comigo.

– Escuta. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu gosto de você, de verdade. Adoro ficar com você. Mas a vida não é tão simples. Ele foi meu primeiro namorado sério. Minha família o adora. Eu não posso sem mais nem menos o largar para ficar com um cara que mal me conhece. Que não conhece minhas manias, meus defeitos.

– Para mim, você não tem defeitos.

– Estou dizendo que você não me conhece… Desculpa magoá-lo, mas eu vou me casar. E não vai ser com você. É melhor você sair. Ainda quero usar o banheiro. 

Sai do banheiro arrasado. Jurava que ela sentia algo por mim, mas percebi que fui usado. Eu não passei de uma despedida de solteira. Meu coração ficou despedaçado. Fui para o banheiro (desta vez o masculino), me tranquei e chorei. Quarenta minutos depois, voltei à minha mesa e fingi trabalhar. 

Os dias foram passando, o casamento dela se aproximando e minha vida perdendo o sentido. Sei que parece um drama pastelão, mas ela realmente mexeu comigo. Eu voltei a considerar a possibilidade de mudar de emprego. Não estava conseguindo conviver com o fato de olhar para o lado e não ter ninguém olhando de volta. Era como se nada tivesse acontecido. Como se ela nunca tivesse vindo à minha mesa sugerindo que eu fosse gay. 

Faltando três dias para ela se casar, eu já tinha me convencido de que tudo não passara de uma aventura pré-matrimonial. Que assim como ela, eu também encontraria uma pessoa para passar o resto da vida. Então, comecei a orar para que ela fosse feliz, para que não faltasse amor em sua vida. Desejei do fundo do coração que ela amasse e que fosse amada. E quando você deseja muito alguma coisa, o universo conspira para que tudo se realize. 

Olhei para o lado. Ela não estava mais na mesa. A movimentação do fim de expediente já tinha começado e todos corriam para o elevador. Ameacei correr, mas desisti. Alguns segundos depois o elevador da direita chegou. Estava vazio. Apertei o botão do térreo e quando me virei recebi um beijo. Um beijo com gosto de morango. Um beijo apaixonado, quente, excitante, molhado, sufocante… 

Queria que este beijo nunca tivesse acontecido. Durou poucos segundos, mas parecia uma eternidade. Um beijo de despedida. Um beijo que até hoje me faz morrer de saudade. 

FIM

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8 comentários

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8 responses to “Aconteceu no elevador (parte final)

  1. Conheço um caso parecido. Homem é tudo meio babaca.
    Parabéns, o texto tem ritmo e me fez ler até o final mesmo com sono. Isso é um puta mérito!

  2. Daniele Villarim

    sempre é bom imaginar um possivel final, mas o bom disso td é q é sempre diferente. AMEI, esse foi o melhor final nestas situações.

  3. zuleide Paulino

    Foi bom esperar pelo final, me surpreendeu.Afinal a palavra e a atitude final foi dela. Gosto do jeito que vc escreve.

  4. Gisele Villarim

    Lindo…

  5. Natália

    “seria um pecado estragar esse momento com palavras.” lindo

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