Aconteceu no elevador

Aconteceu no elevador

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Três andares, os segundos são eternos. Aperto o botão, e quando a porta do elevador está se fechando… o beijo. Ah… aquele beijo… Queria que nunca tivesse acontecido. 

Estava sentado em frente ao computador, minha mesa era uma bagunça. O trabalho era uma droga, e eu já estava prestes a enlouquecer. Até que uma coisa aconteceu. Ela aconteceu. Lembro de ver o tempo parar. As pessoas estavam imóveis. Toda a agência de publicidade parou enquanto ela caminhava em câmera lenta. Demorei quase um minuto para voltar a respirar. 

Como o universo sempre conspira para ferrar sua vida, ela ficou com a mesa ao lado da minha. Um corredor de 1,80m de largura era o que a distanciava de mim. Se eu virasse um pouco o pescoço, era possível ver seus longos cabelos negros, que de tempos em tempos eram suavemente acariciados por sua mão esquerda e estrategicamente colocados por detrás da orelha, fazendo com que sua bochecha rosada ficasse a mostra, ao mesmo tempo em que uma pequena mecha cobria parte de seu seio. 

Seu cheiro era maravilhoso. Ela estava tão próxima, que eu nem precisava respirar fundo para sentir o aroma cítrico de seu perfume. Sem falar no brilho que usava para destacar ainda mais seus lábios carnudos. Eu jurava que o brilho tinha gosto de morango. 

Sem me dar conta, já estava a encarando há alguns minutos. Ela percebeu e também me olhou. Seus olhos eram castanhos. Fiquei com vergonha e desviei o olhar. Ela não. Olhei de relance e vi que ela ainda me olhava. Não pode ser… Ela levantou e caminhou em direção ao bebedouro. Que bunda… 

Os dias foram passando e meus projetos iam se empilhando na mesa. Não fazia mais nada, além de admirá-la. A rotina era: eu a olhava, ela me encarava, eu desviava o olhar. Depois eu olhava de relance, ela continuava me encarando e eu novamente disfarçava. É, era difícil mudar a estratégia. Como eu era um laranja, ela tomou a iniciativa. Gelei quando ela parou em frente a minha mesa. 

– Posso te fazer uma pergunta?

– Outra?

– Engraçadinho… Por que você não para de me olhar?

– Eu? Não sei. (Droga, ela deve pensar que eu sou um tarado). Mas você também me olha.

– Lógico! Você não para de me olhar. Você é gay?

– O quê? Gay? Não, não. Por que você acha que sou gay?

– Sei lá! Você me olha diferente. Não é como outros caras, que só olham minha bunda. Você me olha nos olhos e isso chamou minha atenção.

– Sou gay por que não olho para sua bunda? (pois já olhei e achei maravilhosa).

– Não, não é isso. Só achei seu jeito diferente e fiquei curiosa. Mas deixa pra lá.

– Você tem namorado? – perguntei por impulso. 

Ela respirou fundo, fez um bico, levantou as sobrancelhas, me olhou por alguns segundos e… 

– Sou noiva. Namoro há seis anos e vou me casar daqui três meses. 

Pronto! Seríamos amigos, no máximo. Isso, se eu não morresse de tédio antes. 

A semana seguinte serviu para conversamos e nos conhecermos melhor. Em pouco tempo percebemos que não tínhamos nada em comum, a não ser a grande necessidade de trocar olhares durante todo o dia. Mas isso não era o suficiente. Eu queria mais. Precisava de mais. Só não sabia o que fazer. Ela tinha alguém, ia se casar em poucos meses. Eu não tinha o direito de estragar isto. Pior, não tinha coragem. 

Mais um dia estava acabando, o que significava que o casamento dela estava cada vez mais perto. As pessoas desligavam seus micros e caminhavam em direção aos elevadores. Fui o penúltimo a sair, ela foi a última. O elevador da esquerda chegou. Apressadas, as pessoas correram. Ameacei correr, mas a vi caminhando em câmera lenta. Deixei a porta se fechar. Ela deu um sorriso, enquanto o elevador da direita chegava. 

Bem, quando você quer muito alguma coisa, o universo conspira para ferrar com sua vida. Pode chamar isso de Destino. 

A porta do elevador se abriu. Estava vazio. Cavalheiro que sou, dei passagem para que ela entrasse primeiro. Ainda de costas, ela apertou o botão do térreo. Eu entrava no elevador, enquanto ela se virava. A porta se fechava, e eu me enchia de coragem. Ela se virou, me olhou bem nos olhos. Respirei fundo, a puxei pela cintura e a beijei.

Sua boca tinha gosto de morango. 

Após tanto tempo nos olhando, enfim, estávamos com os olhos fechados. O beijo era apaixonado, quente, excitante, molhado, sufocante… 

Descemos três andares. Os poucos segundos pareciam eternos. Queria que este beijo nunca tivesse acontecido.

Continua…

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13 comentários

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13 responses to “Aconteceu no elevador

  1. Daniele Villarim

    Amei, exceto por ela ser noiva ;( , sempre espero uma linda história de amor com final feliz!!!!! Mas esta ñ será tão feliz pq alguem irá sofrer. Pq alguem sempre tem q sofrer????

  2. marcia

    UMA ESTÓRIA BASTANTE ENVOLVENTE, UM SIMPLES OLHAR JÁ DIZ TUDO!! PARABÉNS, NETO, AMEI….

  3. zuleide Paulino

    Dei uma risada na mesa do escritório, enquanto lia ia imaginando toda a situação, vc esta escrevendo cada vez melhor. Gostei muito

  4. Mari

    Realmente vc escreve cada vez melhor, eu tbm acho 🙂

  5. Mari

    Parei por um tempo e estou achando difícil voltar, acho td que escrevo ruim!

  6. Natália

    sou obrigada a multiplicar isso, acho que deixei meu diário aberto por ai, é muito real o que tu tá escrevendo, parabéns Neto!!!!!

    adorei essa “Bem, quando você quer muito alguma coisa, o universo conspira para ferrar com sua vida. Pode chamar isso de Destino.”

  7. Érica Mendes

    Depois de semanas retorno a leitura e como sempre me encanto com a riqueza dessa história, o surpreendente final e principalmente a facilidade que vc conduz o texto.. Parabéns!

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