Mudança de hábitos

Mudança de Hábitos

Reprodução

Pablo era um homem exemplar. Funcionário padrão, em cinco anos de empresa nunca faltou ou chegou atrasado. Fazia tudo que era pedido e ainda auxiliava seus colegas com déficit intelectual.  Nunca foi promovido, pois, segundo a chefia, sua posição no escritório era estratégica. Ninguém fazia planilhas e respondia e-mails com a mesma qualidade que ele.

Na vida pessoal era um filho presente, marido fiel e amigo para os momentos difíceis. Sempre que alguém queria desabafar, lá estava ele, firme, compreensivo. Nunca negou um centavo quando lhe foi pedido empréstimos. Religioso, frequentava a igreja todos os domingos. Sempre depositava seu dizimo e agradecia a Deus por ser um homem tão abençoado. Orava por sua família, por seus amigos, por sua amada esposa, por seu emprego. Sem sombra de dúvida, Pablo era um homem bom.

Era.

Certo dia, Pablo olhou para o relógio, faltava três horas para acabar seu expediente. Levantou da cadeira, desligou seu computador, pegou sua mochila e caminhou em direção a sala do chefe. Bateu na porta, foi autorizado a entrar. Seu chefe pediu um momento, pois estava numa ligação importante. Pablo esperou eternos 10 segundos e foi embora. Sem paciência para esperar o elevador, desceu treze lances de escada, o equivalente a 390 degraus.

Saindo do prédio, caminhou até o metrô São Bento (tinha carro, mas era um cara que pensava no meio-ambiente), mas antes, fez um pit stop no banco Itaú, onde encerrou sua conta, sacando todo dinheiro que havia juntado para comprar uma nova casa. Quarenta minutos depois, chegou em casa. Sua mulher levou um susto quando ele abriu a porta. Ele a olhou nos olhos e respirou fundo, soltou a mochila no chão, relaxou o braço direito, virou o corpo levemente para o lado, e num rápido movimento, saudou-lhe com um tapa no meio da cara.

Pablo deixou a mulher estendia no chão, andou até o quarto, abriu o armário e colocou algumas roupas na mochila. Seguiu para cozinha, pegou duas garrafinhas de água mineral na geladeira e saiu de casa. Pegou o carro na garagem, um Eco Sport seminovo, e dirigiu sem rumo. Durante sua jornada, avistou um pequeno hotel de estrada e resolveu parar. Umas garotas faziam ponto em frente à espelunca. Ele escolheu a que parecia mais limpa e a levou para o quarto. Era a primeira vez que dormia com uma prostituta. Duas horas depois a dispensou. Estava com sono.

Pablo encostou a cabeça no travesseiro e olhou para o teto. Não ficou pensando no que deixou para trás, e nem no que faria dali por diante. Sabia que sua vida mudaria radicalmente. Mas não estava nem aí. Queria apenas encontrar a paz verdadeira. Fechou os olhos e rezou seu último Pai Nosso.

Ao acordar, Pablo se lembrou de um sonho que teve, e um pensamento ficou martelando sua cabeça: “encontre a Morte.” Mas como? Não sabia nenhum ritual, nunca foi ligado em magia. Não fazia ideia de como encontrar com a Maldita. Até que se recordou de um seriado que assistiu algumas vezes, onde dois irmãos evocavam demônios em uma encruzilhada. Como era mesmo o nome deles? Ah, irmãos Winchester.

Como Pablo não conhecia nenhuma encruzilhada demoníaca, pegou seu carro e seguiu para o único lugar que lhe veio à mente: cruzamento da Avenida Ipiranga com a Avenida São João.  Parou o carro no meio do cruzamento. Em um segundo, buzinas agrediam os tímpanos alheios. Pablo pensou em acender o pisca alerta, mas logo se deu conta de que se queria encontrar a morte, esta não era uma boa ideia. Pegou uma garrafinha de água mineral que estava jogada no banco do passageiro e deu um gole. Achava que seria seu último e não queria morrer com sede. Abriu a porta do carro, deu três passos em direção ao meio da rua, estendeu os braços para o céu e esperou para ser atingido. Carros frearam bruscamente, pedestres gritaram e uma batida aconteceu ao lado de Pablo, mas nenhum veículo o tocou. Um vento forte soprou em sua direção. “É ela”, ele pensou. Olhou para os lados, e nada. Olhou para o céu, e nada. Pensou em se jogar na frente de um carro, mas o vento soprou ainda mais forte e trouxe uma mensagem: “Não é assim que você vai me ver.”

Pablo sorriu. Entrou no carro e foi embora antes que a polícia chegasse. Já sabia o que tinha que fazer.

Longe do centro da cidade, Pablo entrou em uma concessionária e vendeu seu carro pela metade do preço de tabela. Colocou o dinheiro na mochila junto com o resto de suas economias. Seguiu a pé para uma favela na zona norte da cidade, conversou com alguns locais e de lá saiu com um Opala Preto e uma arma. Dirigiu novamente para o centro da cidade. Parou o novo carro, com placa fria, na região da “Cracolândia”. Observou que jovens e crianças se drogavam sem a mínima noção do que estava acontecendo ao redor. Percebeu que nenhum policial fazia ronda naquele pedaço de terra ignorado pela sociedade. Viu um traficante passando uma pedra de crack para um garoto que não aparentava ter mais do que 10 anos. Ligou o carro e seguiu na direção do traficante. Abaixou o vidro, o homem se aproximou. Tinha o rosto pálido, a barba por fazer e um olhar irritante. Aquele olhar…

Pablo fez um gesto para o homem chegar mais perto, quando ele se debruçou sobre a porta do carro, tomou um susto. Um único disparo e a multidão que tomava à calçada começou a correr. Cachimbos de crack caiam no chão ao mesmo tempo em que o corpo do traficante tombava. Pablo calmamente abriu a porta do carro e agachou ao lado do corpo. O homem ainda estava de olhos abertos. Ele o encarou e imediatamente sentiu um êxtase. Os pelos do seu corpo se arrepiaram. Sentiu o vento batendo em seu rosto. Paz. Aquele olhar irritante do traficante transformou-se em um olhar vazio. A morte. Pablo sorriu. Enfim se encontrou com a Morte.

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10 comentários

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10 responses to “Mudança de hábitos

  1. SIMONE HARDY

    UM SER ILUMINADO COM O DOM DA ESCRITA É NETO BACH ADMIRO MUITO SUAS CRÔNICAS NÃO SEI SE ASSIM POSSO CHAMAR MAS GOSTARIA MUITO QUE SEUS POEMAS QUE VC ESCREVEU HÁ MUITO TEMPO QUE A CAPA DO LIVRO É UM LINDO PIERÔ MOSTRE AO MUNDO SUA ARTE.DE UMA DAS SUAS MAIORES ADMIRADORA! FÃ E PRIMA!!!BJS MUITA LUZ!!!!

  2. Deborah

    Nossa que profundo! Não consegui desgrudar da tela até acabar. Maravilhoso!

  3. zuleide Paulino

    Parei no meio do trabalho, para ler… Gostei não consegui parar até chegar ao final. Gostei muito.

  4. Daniele Villarim

    Geeeeeeenteeeeee vai ter mais??? Preciso de explicações!!!!!!!

  5. Gisele Villarim

    Sempre neh… tem que pedir mais explicações???… rs

    Mas ai… vai ter mais???

    Bjus

  6. Amigos, muito obrigado pelos comentários. Esclarecendo: o Pablo é um personagem que deve aparecer em outros textos. Pode ser que eu revele outras coisas sobre seu comportamento, pode ser que não. Ele ainda é um mistério para mim. Espero que continuem acompanhando e dando suas sugestões. Grande abraço!

  7. Ed Mesquita

    MAIS UMA VEZ VC ME SURPREENDEU, A REALIDADE NUA E CRUA, VC É O CARA, PARABÉNS, BJS AMIGO/IRMÃO.

  8. Natália

    como eu já disse anteriormente, não aguento mais esses textos bons hehehe, parabéns Neto, impossível parar de ler!!!

  9. marcia

    NA MINHA OPINIÃO,O MISTÉRIO DESSA PERSONALIDADE DE PABLO DEVERIA SER DESVENDADA, POIS, A VIDA NÃO PODE SER TÃO CRUEL ASSIM COM ELE! QUERO AINDA MAIS SABER DA ESTÓRIA DELE MAS COM UM FINAL FELIZ É CLARO!! MAS FINAL FELIZ OU NÃO NETO, SEUS TEXTOS SÃO DE ARREPIAR!!! PARABENS E TUDO DE BOM!!!

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