Hotel Lincoln

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Tínhamos acabado de fazer amor quando ela começou a chorar. Ela sabia que era uma despedida. E eu não conseguia disfarçar.

– Nunca mais vamos nos ver, não é? – ela pergunta soluçando.

– Provavelmente, não. – Evito encará-la.

– Por que você não pode me amar do jeito que a ama? Não sei o que fiz de errado. Por que você simplesmente não me ama?

Tomei-a  em meus braços, mas não respondi.

Nós éramos puro ódio. Ela não suportava nem cruzar comigo no corredor da empresa. Sua cara de desdém me dava nos nervos. Quando abria a boca para falar comigo era sempre para me atacar. Mal sabia que logo eu seria seu chefe. Prometi pra mim mesmo que iria fazê-la comer o pão que o diabo amassou. E fiz.

Meu ouvido doeu quando ela bateu a porta. Tinham acabado de anunciar minha promoção. Tornei-me gerente de vendas com apenas seis meses de casa. Não, não comi ninguém para conseguir o cargo. Apenas me foquei no trabalho e atingi minhas metas. Vendi mais seguro em três meses do que o resto da empresa em um ano. Eu merecia aquela mesa, mas precisava convencer minha equipe disso. Precisava convencê-la.

A filha da mãe não foi na primeira reunião que fiz e me obrigou a tomar uma atitude radical. Tirei-a de vendas e a coloquei como minha secretaria. Eu não podia demiti-la. A equipe provavelmente ficaria revoltada achando que eu era um carrasco. Então a solução foi deixá-la sofrendo na minha sala e bem longe dos outros funcionários. Não queria que ela falasse mal de mim pelas costas.

A primeira semana dela foi maravilhosa. Pedi um milhão de relatórios, café, orçamento de bloco de notas e mais café. Sempre forte, doce e feito na hora. Cheguei a pensar que ela ia pedir arrego, mas ela não pediu. Na verdade, ela fez tudo sem pestanejar. O que me fez olhá-la com outros olhos.

Ela parou de chorar. Achei que era uma boa oportunidade para ir embora, mas hesitei. Acariciei seus cabelos, ouvi sua respiração aumentando até que ela se levantou. Enquanto caminhava em direção a mesa para pegar água, pude ver o quanto é bonita. Sua pele parece veludo, seu corpo nu é uma obra de arte, 1,70m de carne malhada e bem definida – fruto de horas de ginástica. Seus cabelos negros e longos quase alcançam sua cintura. Ariane é uma mulher praticamente perfeita. Qualquer homem faria de tudo para ficar com ela. Menos eu.

– Quer um pouco de água?

– Não, obrigado.

– Desculpe-me por ter feito cena. Só não me acostumei com a ideia de não ter mais você.

– Eu que me desculpo. Queria poder lhe dar algo mais, mas não posso.

– Você vai encontrá-la quando sair daqui?

– Vou.

Em pouco tempo me destaquei no novo cargo. A empresa ia bem, conseguimos ampliar nossa carteira de clientes e aumentar o faturamento. Minha equipe estava motivada, eu estava motivado. Principalmente porque encontrei em minha inimiga a secretária perfeita. Formávamos uma ótima dupla, ela era meu braço direito e esquerdo.  Pensávamos parecido, ela completava meus raciocínios e me ajudava a liderar. Foi inevitável manter nossa cumplicidade apenas no escritório. Logo levamos nossa parceria para um quarto do Hotel Lincoln, a três quadras da empresa.

Não importava se era certo ou errado, fazíamos tudo na surdina. Tínhamos um quarto fixo, onde podíamos trocar confidencias, dar risadas e fazer tudo o  que não tínhamos coragem de fazer com outras pessoas. Vivíamos uma fantasia. Por um tempo ignoramos nossas vidas dentro e fora do escritório. Foram semanas agindo por impulso. Fomos irresponsáveis como dois adolescentes. Fizemos sexo como dois adolescentes. Nos sentíamos invencíveis, mas era hora de voltar à realidade.

– Olha, eu sei que é difícil explicar. Você deve me achar o pior cara do mundo. Mas eu não posso mudar o que sinto por ela. O que fazemos é errado.

– Você me usou.

– Nunca. Até hoje tudo o que fizemos foi sincero.

– Não minta pra mim. Você me odiava.

– Porque você encrencava comigo. Mas meu sentimento mudou. Você é minha melhor amiga.

– Amiga? Eu implicava com você porque já estava apaixonada. Por que acha que aceitei ser sua secretária?… Eu só queria ficar perto de você, seu idiota. Nunca quis ser sua amiga.

– Desculpe. Não sei o que dizer.

– Diga por que não pode deixá-la para ficar comigo?

– Não posso deixar o que ainda não tive. Hoje será nosso primeiro encontro. Sempre fui apaixonado por ela, desde a época da escola. Não posso deixá-la escapar e trair meus sentimentos.

– Sentimentos… Você nem sequer a beijou. Depois de tudo que passamos… mesmo assim prefere ela?

– Sinto muito.

– Nós somos uma dupla perfeita. Eu posso lhe dar tudo, posso largar tudo por você. Por favor, não vá embora. Este quarto de hotel é tudo o que importa. É nosso templo.

– Não faz isso. Não quero que largue nada. Tivemos algo especial, mas a vida segue do lado de fora deste hotel. Não é o fim do mundo.

– Pra mim é. Por favor, fica. O que ela tem que eu não tenho?

– Ela é livre.

– Eu posso ser.

– Não pode. Você tem marido e filho. Tem responsabilidades que a impedem de ser livre como eu, ou como ela. Sinto muito. Preciso ir.

Ainda vi as lágrimas escorrendo de seus olhos enquanto eu fechava a porta. Saí do hotel sabendo que aquela parte de minha vida ficaria para trás.

Ela não apareceu mais para trabalhar. Fiquei preocupado, mas ao mesmo tempo aliviado. Eu não poderia ser seu amante para sempre e não me perdoaria por destruir uma família. Sei que a fiz comer o pão que o diabo amassou, mas também sei que ela irá superar. Logo ela se lembrará de Lincoln apenas como o ex-presidente americano. E as paredes do quarto de hotel serão somente lembranças de um pequeno desvio em sua vida.

(Imagem reproduzida do site do hotel Lincoln em Chicago, USA)

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Tudo o que elas gostam de escutar

Falando ao pé do ouvido

Reprodução internet

Mulher é bicho estranho. Elas se acham superevoluídas (não são), modernas (algumas), mais fortes que os homens (só por causa do parto), mais inteligentes (em partes), mais compreensivas, pois perdoam facilmente (mentira). Enfim, acham que estão preparadas para tudo (não estão). Num relacionamento, segundo a mulher que eu convivo, prezam pela sinceridade. Querem que seus parceiros sejam seus cúmplices, que troquem confidências e que jamais guardem segredos. Tudo o que elas gostam de escutar é a verdade. Mas a verdade é uma só: elas querem que o homem minta. 

Podem me chamar de machista (não sou. Detesto macho), mas vou tentar provar minha tese em cinco atos.

UM 

Tudo começa com o namoro. Início de relacionamento é uma beleza. Um monte de mentira. Os dois tentam mostrar suas qualidades, entre um beijo e outro descobrem que gostam das mesmas coisas, inclusive que torcem pro mesmo time (lá na frente ele descobre que ela não suporta futebol) e quando menos percebem já estão trocando confidências. Aí que não tem volta. 

– Pedro, preciso te contar uma coisa. Mas você não pode me zoar.

– Claro que não Maria. Pode confiar em mim.

– Eu sou virgem. E quero que minha primeira vez seja com você.

– …

– Você já dormiu (Dormiu. Mulher não fala transar.) com alguma garota?

– … 

O que ela gostaria de escutar:

– Não, meu amor. Também sou virgem. Queria que minha primeira vez fosse com uma garota especial. Agora sei que esta garota é você. 

– Eu sabia. Desde que te conheci, eu sabia. Nós nascemos um para o outro. 

A verdade:

– Sim. Já transei com umas cinco (dez) garotas. 

– Não acreeeedito. Eu sou uma idiota mesmo. Como pude imaginar que encontraria um cara virgem que pudesse dividir a mesma experiência comigo? Isso só existe em conto de fadas. Como eu fui burra em te contar. Acho melhor nós terminarmos. 

DOIS 

Maria perde a virgindade com Pedro. Acredita que agora é uma mulher madura e que nada vai abalar seu relacionamento, pois ela está em pé de igualdade com qualquer mulher e não corre o risco de perder seu amado por causa de sexo. Até que uma amiga da família faz uma visita surpresa. Ameaçada, Maria quer saber os detalhes. 

– Quem é esta?

– É a Elaine, uma amiga da família. Às vezes ela vem aqui visitar minha mãe.

– Sua mãe!? Sei. Você já namorou com ela?

– Não.

– Ela gosta de você.

– Que nada.

– Gosta sim. Eu vi o jeito como ela te olha.

– Besteira.

– Você já dormiu com ela?

– …

– Pode contar. Não vou ficar brava.

– … 

O que ela gostaria de escutar:

– Não, claro que não. Maria, nós somos apenas “colegas”, mal falo com ela. Além do mais, ela nem faz meu tipo. Gosto de garotas como você. Gatinha, meiguinha, com cara de boneca. Só tenho olhos para você, meu amor.

– Ah, que lindo. Também só tenho olhos pra você, meu docinho. E com certeza dou de dez a zero nestazinha.

A verdade:

– Sim. Mas já faz um ano (um mês). Nós estávamos bêbados, acabou rolando. Juro que só foi uma vez (três).

– Seu filho da puta. Eu sabia. Assim que vi esta piranha eu senti que vocês tiveram algo. Ela fica te comendo com os olhos, seu sacana. Aí, mas que ódio… Agora toda vez que ver esta vaca vou pensar em você comendo ela. Seu desgraçado… 

TRÊS 

O casal está na cama dando uns amassos. Ele está concentrado no vai e vem e ela está muito distraída, pensando na conversa que teve com sua amiga do trabalho. 

– Pedro?! Espera um pouco.

– O que foi? Tá machucando?

– Não. Mas estou aqui pensando. A Estela estava arrasada hoje no trabalho.

– Por quê? (E daí?)– Pedro retoma o vai e vem.

– Ela descobriu que o marido dela se masturba. 

“Pronto. Fodeu!”

– …

– Eu disse pra ela não ficar triste, que isso não significa nada. Eu não ligaria se você se masturbasse. Você se masturba?

– …

– Pode falar. Não tenha vergonha. 

O que ela gostaria de escutar:

– Não, nem penso nisso. Prefiro quando você faz para mim.

– Eu sei. Também gosto quando você faz em mim. 

A verdade:

– É… não. Só quando eu era solteiro (e às vezes no banho).

– Pra quê, né? Se podemos fazer um no outro. Mas eu não ligaria se você se masturbasse. Falei pra Estela que isso é normal.

– Sei, sei… Tudo bem. Pode deixar que se eu tiver vontade te falo (até parece). 

QUATRO 

Cansada, Maria vai dormir cedo. Pedro continua assistindo TV para pegar no sono. Vai pulando de canal em canal procurando algo que o distraia até pegar no sono. Entre o GNT e o Multishow, Maria acorda assustada e Pedro muda o canal. 

– O que você está vendo? 

O que ela gostaria de escutar:

– Nada. Só estou passando os canais.

– Você está vendo filme pornô? Eu vi uma bunda gigante na TV.

– Não, não era pornografia. Era a bunda do Borat.

– Ah, tá bom. Vou dormir. Boa noite! 

A verdade:

– Tava vendo um programa erótico no Multishow. Nada de mais. Só duas garotas se pegando.

– Seu tarado. Não acredito que fica vendo estas porcarias enquanto estou dormindo, seu sacana. Você fica excitado vendo duas mulheres, seu depravado? O que você fica fazendo?

– Nada. Não viaja. Mas espera aí… Você tinha dito que se eu batesse umazinha tudo bem, você não ligava. Mas ver filme pornô não pode?

– Claro que não. Pode se masturbar pensando em mim, não em duas piranhas que vê na televisão.

– Ah… tá. Só pensando em você… entendi. 

CINCO 

Feriado prolongado está chegando. Pedro faz um monte de planos para esquentar o clima com a Maria. Ele compra vinho, rosas, um biquíni novo para a amada e faz reservas numa pousada no litoral norte de São Paulo. Mas quando chega a sexta-feira, a decepção. 

– Pedro, vamos viajar com a minha mãe? Faz tempo que não a vejo e ela está doidinha para contar as novidades. 

O que ela gostaria de escutar:

– Claro meu amor. Que saudade da minha sogrinha.

– Ah, que amor… Ela vai adorar te ver.

– Hum, rum… 

A mais pura verdade:

–NÃAAAAAAAAAAAAAAAOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO… 

– Te odeio. Sabia?

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Lembrança Amar…ela (parte final)

Neto e Lígia

O telefone tocou. Levantei da cama correndo para atendê-lo. A noite anterior não foi exatamente como eu havia planejado, mas no final, ela pegou o guardanapo com o número do meu telefone. Ela estava acompanhada de outro cara, mas nem isso abalou minha confiança. O telefone estava tocando e eu sabia que minha vida iria mudar no momento em que eu atendesse. 

– Alô!

– Alô, Pedro?

– Isso.

– Oi Pedro. É a Sheila. Tudo bem?

– Oi moça! Tudo bem. E contigo?

– Estou bem. Fiquei preocupada por você ter voltado pra casa sozinho. Devia ter te dado carona.

– Não esquenta. Cheguei de boa.

– Que bom. Deixa eu falar… Achei muito legal o que rolou ontem.

– Eu também.

– Vai fazer o que hoje? Posso dar um pulo na sua casa?

– Pode sim.

Passei o dia inteiro com a Sheila. Conversamos bastante. Beijamos-nos bastante. Ela me explicou porque não ia com a minha cara, porque me chamava de fantasiado. Disse que odiava meu jeito roqueiro de se vestir e meu cabelo ensebado. Só não conseguia explicar como ficou atraída por mim. Acabamos rindo da situação. O problema foi que ela passou tanto tempo lá em casa, que não tive como escondê-la da minha família. Para eles, ela era minha nova namorada. E até poderia ser. Ela era bonita, jeitosa (para não dizer gostosa), inteligente… Mas só tinha um problema. Eu estava apaixonado pela Laura. É… A mesma Laura que pegou meu número de telefone e não ligou.  Talvez por vingança, por eu ter pegado seu número e dado para o Roberto. Será que ia dar meu número para outra garota? Tomará que seja mais bonita que o Beto.

O telefone tocou, mas eu não quis atender. Só podia ser a Sheila. Decidi ficar na cama, pois era o único jeito de não me comprometer. Não adiantava enganá-la. Não queria nada sério. Mas a menina era insistente, e o telefone continuou tocando e tocando… Fui vencido pelo cansaço.

– Alô.

– Oi Pedro!

– Oi Sheila! Tudo bem?

– Quem é Sheila?…

Há tempos não me sentia tão feliz. A Laura me ligou e ficamos horas no telefone. Descobrimos muitas coisas em comum. Trocamos confidencias, revelamos nossos medos, compartilhamos nossos sonhos e trocamos juras de amor. Ela falou que jamais ficaria com o Beto se soubesse que ele tinha namorada. Na verdade, me disse que só lhe beijou uma única vez, e que desde o início queria ficar comigo. Brigou por eu não ter ligado quando ela me deu seu número. Por minha vez, disse que se não tivesse dado seu telefone para o Beto, jamais teríamos esta conversa.

Todos os dias ela me ligava por volta das onze horas da manhã. Sempre para desejar bom dia. Eu ligava novamente por volta das dez horas da noite. Sempre para desejar boa noite. Também nos falávamos durante o dia em horários alternados. Batia a saudade, pegávamos o telefone. É lógico que queríamos nos ver. Mas uma pitada de medo nos impedia. Este ritual durou cerca de duas semanas. Mas quando meu aniversário se aproximou decidimos que era o momento certo. Meu presente seria ela.

Por influência de um amigo, resolvi comemorar meu aniversário num barzinho no bairro do Bixiga. Não conhecia o bar, mas achei uma boa ideia. Combinei de buscá-la em uma rua próxima a sua casa. Como eu não tinha carro, um amigo me deu uma carona. Fiquei encostado no fusca (outro fusca, não o amarelo) ansioso, olhando de um lado para o outro. Meu coração disparou quando a vi se aproximando. Usava calça jeans, sandálias pretas, uma blusinha preta e um gorrinho para esconder os cabelos recém cortados. Ela disse que teve um surto e resolveu passar a máquina quatro na cabeça. Lembrava a cantora Sinéad O’Connor, só que muito mais bonita. Era incrível. Até careca ela era linda.

Me deu um beijo estalado no rosto e um abraço sutil. Confesso que eu esperava algo mais intenso. Um beijo de cinema, um abraço apaixonado. Quem sabe um ‘eu te amo!’. Mas estávamos tensos. Não éramos os mesmos. Éramos estranhos. Por telefone era tudo mais fácil. Apresentei meu amigo e entramos no carro. Ficamos praticamente calados. Eu tentava controlar minha ansiedade e não parecer um bobo.

Quando chegamos ao barzinho, me senti um nada. Todos nos olhavam. Todos cochichavam. Ela era demais para mim. Conforme eu a apresentava para meus amigos, percebia que eles a olhavam com desejo, as meninas a olhavam com desdém. Comecei a ficar desesperado. Logo ela perceberia que eu não era o cara certo para ela. Eu não tinha nada a oferecer. Era um roqueiro pobre, feio, com o cabelo ensebado e as roupas largadas. Naquele bar só tinha playboy. Eu era o estranho no ninho.

Percebendo minha angústia, ela segurou minha mão. Deu um sorriso acolhedor e disse que estava com sede. Pedi duas cervejas. Talvez um pouco de álcool me acalmasse. Não tínhamos o que conversar. Parece que gastamos nosso vocabulário por telefone. Virei minha bebida de uma vez só. Ela pegou um cigarro. Respirei fundo e peguei o isqueiro da mão dela, me oferecendo para acender. Ela se inclinou levemente para frente e, tirando coragem da alma, me inclinei tentando beijá-la. Ela recuou. Por um instante, achei que aquele era o fim. Ela caiu na real e percebeu que merecia um cara melhor. Foi então que ela perguntou.

– Tem certeza que fazer isto?

– Por quê? Você não quer?

– Quero muito. Mas a partir daqui, seu comportamento vai ser meu comportamento. A maneira que você me tratar vai ser a maneira que eu vou te tratar. Tem certeza que você quer fazer isto?

– Tenho.

Ela colocou o cigarro sobre a mesa, se inclinou novamente e nos beijamos. Um beijo apaixonado, intenso como deveria ser. Alguém nos fotografou. O flash registrou aquele momento mágico. A espera havia terminado. Não me importei mais com os outros nos olhando. Ela era minha. Meu mundo nunca mais seria o mesmo. Nunca mais.

Os dias foram passando, e estar com Laura era algo de outro planeta. Tudo que ela fazia era diferente. Seu beijo era diferente, seu toque era diferente, a forma como me olhava era diferente. Era um olhar apaixonado, como nunca uma garota havia me olhado antes. Ela compartilhava seus sentimentos, seus sonhos, suas fantasias. E eu estava sempre disposto a fazer o que ela queria. Ela merecia tudo de bom. Me dava amor, e o mínimo que eu podia fazer era retribuir. Nosso relacionamento era perfeito. Infelizmente, o perfeito estraga.

Depois de nos isolarmos e nos sugarmos ao máximo, decidimos que era hora de dividir nossa felicidade com os amigos. Só que os amigos não queriam ver nossa felicidade. Fofocas e intrigas começaram a fazer parte do nosso cotidiano. E não demorou muito para nosso conto de fadas ir para o espaço.

A noite estava fria. Combinamos de ir para Vila Madalena com alguns amigos mais próximos, entre eles, Roberto e Alessandra, que havia se encantado com a Laura e a tratava como sua nova melhor amiga. O Beto não guardava rancor por eu ter ficado com a Laura. Pelo menos, nunca tínhamos falado sobre o assunto, e tocamos nossas vidas como se nada tivesse acontecido. Até que, entre uma cerveja e outra, Alessandra chamou a Laura para comprar cigarros. Beto se levantou da mesa e saiu. Alguns minutos depois, Laura voltou.

– Quero ir embora.

– O que foi Laura?

– Nunca fui tão humilhada. Vamos embora, por favor.

– Calma. Me diz o que está acontecendo. Por que a Alessandra tá chorando?

– O Roberto resolveu ter uma crise de consciência e contou para Alessandra que a tinha traído comigo. Tentei explicar que não sabia de nada, mas ela me acusou de fingir ser amiga dela, enquanto queria ficar com o Roberto.

– Não acredito.

– Acredite. Seu amigo me humilhou na frente dela. Se vingou por eu ter escolhido ficar com você.

– O Beto não faria isto de propósito.

– Mas fez. Ele não presta. Além de me enganar dizendo que era solteiro, quer estragar meu relacionamento com você. Só você não enxerga. Vamos embora, por favor…

– Claro.

O Sol já estava nascendo quando a deixei em frente ao seu prédio. Pedi desculpas pelo que havia ocorrido. Prometi que nunca mais sairíamos com eles. Voltaríamos a nos isolar e fingiríamos que nada havia acontecido. Éramos felizes sem ninguém por perto. Tudo voltaria ao normal. Ela concordou. Disse que me amava, devolveu a jaqueta que eu tinha lhe emprestado, me beijou delicadamente e me deu um longo abraço. Senti que seria o último. Mas não quis acreditar. “Toma cuidado com seu amigo”, ela disse antes de entrar.

Fui para casa com o coração na mão. Queria matar o Beto. Não entendi porque ele fez isso. Ele era meu melhor amigo. Por que ia querer acabar com meu namoro?  Por que quis magoar a Alessandra? Talvez o fato de elas estarem se dando bem o incomodou. Não tem como saber.

Dormi a manhã inteira, mas quando acordei a primeira coisa que fiz foi ligar para Laura. Queria ter certeza que estávamos bem. 

– Oi princesa! Como você está?

– Péssima. Ontem foi a pior noite da minha vida. Nunca imaginei que passaria tanta vergonha, que seria tão humilhada.

– Imagino. Desculpa, nunca deveríamos ter saído com eles.

– Não tem que se desculpar. Você não tinha como saber que seu amigo era um crápula.

– De qualquer forma, me sinto culpado. Mas vamos nos ver. Ficar juntos é a melhor forma de esquecer tudo isso. Nossa discoteca vai abrir hoje por causa do feriado de 1º de maio. Vamos beber e dançar um pouco.

– Acho melhor não. Estou cansada. Vou ficar em casa com minha mãe, faz tempo que não conversamos. Mas você pode ir.

– Sem você? Não.

– Pode ir. Eu confio. Mas por via das dúvidas, tem sempre alguém te observado por mim. Cuidado…

– Tá bom. Vou ver. De qualquer forma, te ligo depois.

– Combinado. Divirta-se por nós dois. Te amo!

– Também te amo. Bye!

Fui sozinho para discoteca. Como era véspera de feriado, o movimento estava fraco. A maioria das pessoas devia ter ido viajar. Minha amiga do bar estava lá, o que garantiu minha bebedeira gratuita. Queria esquecer a noite anterior na Vila Madalena, e nada melhor do que encher a cara.

Vi poucos rostos conhecidos e não estava no clima para fazer novas amizades. Gastei meu tempo batendo papo com o DJ, e quando já estava decidido a ir embora, ela apareceu. Sheila. Também tinha ido sozinha para a discoteca. Disse que estava entediada e que resolveu arriscar na noite. Sorte minha, pois teria companhia agradável.

Contei que estava namorando. Desculpei-me por não ter ligado mais. Ela disse que tudo bem, que também estava ficando com outro cara, mas que não sabia se era sério. Desejei boa sorte, falei que ela era uma garota muito especial e que merecia o melhor. Ela fez os mesmos votos, só que naquela noite nós éramos os melhores um para o outro. Por ironia, troquei a Sheila pela Laura, e agora estava colocando tudo a perder no sentido inverso.

É lógico que me arrependi. Tentei falar com a Laura assim que cheguei em casa. Mas a mãe dela disse que ela tinha saído com uns amigos. Tentei de novo no dia seguinte, e nada. Eu tinha a perdido. Talvez alguém tivesse me visto com a Sheila e contado para ela. Talvez a humilhação que o Beto a fez passar tenha sido o motivo. Ou simplesmente ela tenha percebido que eu não era o cara certo.

Cheguei a ir ao condomínio onde ela morava. Pelo interfone a mãe dela disse que ela não estava. Convenci o porteiro a me deixar entrar. Bati na porta do apartamento 43 do prédio sul. Eu estava um caco. Mal vestido, cabelo bagunçado, consideravelmente embriagado e acima de tudo, arrependido. Arrependido de ter dado seu telefone aos meus amigos, arrependido de ter a colocado em uma situação constrangedora e arrependido de tê-la traído. Precisava esclarecer tudo. Dona Iara abriu a porta.

– O que você está fazendo aqui? Eu te falei que a Laura saiu.

– Eu sei que ela está aqui. Preciso falar com ela.

– Deixa que quando ela quiser falar com você, ela te procura. Vai embora.

– Por favor, me deixa falar com ela. Eu sei que ela está aqui. Eu amo sua filha.

– Escuta. A Laura saiu com uns amigos. Não sei o que aconteceu entre vocês, só sei que minha filha mudou. Agora ela está querendo voltar à vida que tinha antes. E na vida dela não tinha você.

– Não acredito. LAURA…QUERO FALAR COM VOCÊ. SEI QUE VOCÊ ESTÁ Aí. LAURA…

– Para de gritar. Você vai incomodar os vizinhos. Já disse que ela não está.

Dona Iara bateu a porta na minha cara e naquele momento percebi que realmente era o fim. Nunca mais a vi. Tentei contato outras vezes. Mas ela nunca me atendia. Até a Alessandra tentou me ajudar. Uma vez conseguiu falar com ela. Disse que a Laura estava sofrendo, que gostava muito de mim e que um dia me explicaria tudo. Só que este dia nunca chegou.

Com o tempo seu número de telefone mudou, ela saiu do trabalho e em mais uma tentativa de encontrá-la em seu apartamento, descobri que ela e sua mãe tinham se mudado. Era como se nunca tivessem existido. Depois disso, entrei em uma depressão profunda. Bebia que nem louco, chorava que nem criança. Cheguei até a mudar de cidade. Mas nada me fazia esquecê-la. Tempos depois, o Beto me contou que ela encontrou um ex-namorado enquanto comprava cigarros com a Alessandra, e por isso havia me deixado. Não acreditei. Mas isto explicaria tudo. Nunca saberei a verdade.

Confesso que por anos a procurei pelas ruas. Sempre que eu via uma garota de cabelos curtos imaginava que era ela. Sempre que o telefone tocava, eu atendia acreditando que seria ela. Refiz nossos passos, fui aos lugares que nós frequentávamos, mas ela nunca apareceu. Disse que nunca me abandonaria, mas mentiu. Tudo bem. O tempo passa e a tristeza vai embora.

Gosto de pensar que vivi um sonho. Uma história de amor entre a princesa e o plebeu. É certo que esta história não teve um final feliz, mas isso não quer dizer que a vida tenha que ser infeliz. E se for verdade que só se supera um grande amor com outro grande amor. Então superei. E torço para que a Laura tenha superado. Espero que ela tenha conhecido alguém legal, assim como eu conheci. Alguém para passar o resto da vida, alguém para dividir alegrias e tristezas. Alguém que entenda que fuscas e camisetas amarelas ficam guardados na lembrança, e que saiba que a vida é muito mais colorida.

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Lembrança Amar…ela (parte 2)

Camiseta Amarela

Reprodução

Amor à segunda vista. Isso é nome de filme, mas aconteceu na vida real. Quando a vi se aproximando, é como se o mundo tivesse me falado: “você vacilou da primeira vez. Aproveita esta chance”. Eu tinha que aproveitar. Estava apaixonado há 60 segundos, aproximadamente. 

Ela me cumprimentou com um beijo na bochecha. Não aquele beijo falso, rosto com rosto. Ela literalmente me deu um beijo gostoso e estalado na bochecha. 

– Eu sou Pedro.

– Eu sei.

– Esta saindo do carro é a minha amiga Renata.

– Oi ‘amiga’ Renata. Muito prazer.

– O prazer é meu.

– Então, vamos nessa? – Perguntou Roberto. 

Beto abriu o carro. A Renata entrou e se sentou atrás do banco do passageiro. Sentei-me atrás do Beto mantendo uma distância segura da Renata, mas de uma forma que eu pudesse ver a Laura. Rapidamente decidimos ir a um mercado comprar umas bebidas. A ideia era encher a cara em uma pracinha perto de casa. No caminho, começamos a conversar sobre coisas do tipo que banda você gosta, qual o último filme que viu, que baladas você freqüenta… Mas a verdade é que, em no máximo em 5 minutos, o Beto dirigia calado, a Renata olhava emburrada pela janela e a Laura soltava o cinto de segurança para poder se virar e me olhar enquanto conversávamos. Parecia que estávamos sozinhos. 

Quando chegamos ao mercado chamei o Beto de canto. Enquanto as meninas continuaram andando. 

– Estou apaixonado.

– Caramba, Pedro! Não sabia que o lance com a Renata estava sério.

– Não, não é nada disso. Estou apaixonado pela Laura.

– Tá zoando! Que papo é esse? Você me deu o telefone dela. Nem se interessou.

– Eu sei, eu sei. Mas quando a vi com a aquela camiseta amarela da cor do fusca, tudo mudou. Estou apaixonado. É sério.

– Beleza. Você quem sabe. – Falou contrariado.

– Beto, jura que não vai ficar com ela? 

Beto hesitou. 

– Beto, jura!? Você já tem um lance sério com a Alessandra. Não faz isso comigo.

– Tudo bem. Não vou ficar com ela. Seu cabeludo maluco.

– Te amo, cara! 

Compramos duas garrafas de Contini e grandes barras de chocolate Diamante Negro. Ouvi dizer que a combinação era boa para dar um grau. Chegamos na pracinha. Sem sair do carro, fazíamos um rodízio da garrafa e do chocolate. Não tardou para a bebida fazer efeito e logo estávamos rindo de qualquer besteira. Meu sorriso só sumiu quando o Beto saiu do carro com a Laura. Tive a sensação de que ele não cumpriria o juramento. 

Fiquei sozinho com a Renata. Um segundo após os dois saírem do carro ela pulou pra cima e começou a me beijar. Posicionou-se sobre as minhas coxas, prendeu os cabelos louros, me convidado a beijar seu pescoço. Tirou sua camiseta, depois seu sutiã. Pegou minhas mãos e as colocou sobre seus seios. Voltou a me beijar, mas eu não estava afim. Estava com cabeça fora do carro. 

Os dois demoraram cerca de uma hora para voltar ao fusca. Tempo o suficiente para eu acabar com o Contini e com o Diamante Negro. Os convenci a parar no mercado para comprar mais. Fomos para minha casa, continuei bebendo. Na verdade, fui o único que continuou bebendo. Coloquei uma música, deitei no tapete, a Renata deitou ao meu lado. Depois pensei que a música foi uma péssima ideia, pois ajudaria a rolar um clima. Bingo! Olhei para o lado e vi o Beto beijando a Laura. Senti o mundo girando e apaguei. 

Quando me dei conta, estava sentado em uma cadeira de rodas. Eles tinham me levado ao hospital, após perceberem que eu havia desmaiado de bêbado. Não vi a Renata, ela deve ter ficado puta da vida comigo. Também não me lembro do Beto. Só me lembro da garota com camiseta amarela segurando minha mão e dizendo que tudo ficaria bem. Que ela nunca me abandonaria. 

Naquele momento, nada mais importava. Eu sabia que ela seria minha. 

Quando acordei, já estava em casa, deitando em minha cama. Não sei como voltei. Provavelmente o Beto me trouxe. Só sei que acordei numa disposição tremenda. Devo ter tomado tanto soro que nem estava sentindo a ressaca. Muita coisa não estava clara em minha cabeça, mas me lembrei do principal. O Beto beijando a Laura, quebrando seu juramento, e eu deixando a Renata na mão. Mas ela já não fazia mais parte da minha vida. Independente do que aconteceu, eu sabia que a Laura ficaria comigo. E sabia onde encontrá-la. 

Cheguei na boate por volta da meia-noite. Fui sozinho, não queria dividir aquele momento com ninguém. Há três dias eu tinha me apaixonado e agora estava ali para tomá-la em meus braços. Paguei a entrada, passei pela revista, e quando olhei a escada que me levaria à pista do Rock, lá estava ela subindo os degraus. Vestia jeans claro e camiseta branca, bem mais discreta. Não precisei ver seu rosto para saber que era ela. Eu sabia que estávamos conectados, sabia que ela estaria na boate em que nos vimos pela primeira vez. Só não contava que ela iria acompanhada. 

Não me intimidei. Muito pelo contrário. Senti uma euforia imensa. Estava tudo escrito, e com certeza eu passaria uma borracha sobre aquele coadjuvante. O cara era o oposto de mim. Enquanto eu estava com jeans rasgado e camiseta do Nirvana, o fulano estava todo engomado, com calça social e camisa rosa. Enquanto meus longos cabelos sebosos cobriam meu rosto, o cabelo do viadinho até brilhava de tanto gel. O que ela viu nele? Dane-se. Ela seria minha. 

Fui para o bar e pedi uma cerveja. Pensei no St. Remy com cereja, mas desisti. Como sempre, minha amiga não cobrou. Eu devia ter ficado com ela, mas tinha medo de que longe do bar ela fosse imperfeita. Preferi continuar com a ilusão. Andei pela pista e fiquei a observando. Ela conversava com o “mauricinho”, mas mantinha uma pequena distância dele. Com certeza não eram tão íntimos. Finalmente ela me viu. Abriu um belo sorriso e acenou com a cabeça. A cumprimentei levantando meu copo, mas não fui falar com ela. 

Fiquei encostado na parede, até que uma garota se aproximou. Sheila. Uma “patricinha” que me esnobava na escola, mas que agora estava ali querendo atenção. Bem, se eu não beijaria a Laura naquela noite, a Sheila era uma boa opção. Fui para o bar e enfim pedi meu adorado St. Remy com cereja. 

O clima começou a esquentar. O rock rolava a todo volume e a tensão aumentava. Eu beijava a Sheila enquanto olhava para Laura. Laura beijava o playboy enquanto olhava para mim. Ambos sabíamos que aquilo não era sincero. Beijos falsos apenas para provocar. No fundo, queríamos estar juntos. Eu tinha certeza disto. Então resolvi tomar uma atitude. Resolvi ir embora. 

Dei um beijo de despedida na Sheila. Ela reclamou que a balada ainda estava no início, mas insisti que eu precisava ir embora. Ela me ofereceu uma carona pra casa. Apesar de morarmos perto, não aceitei. Queria andar. Espairecer um pouco. Prometi que nos veríamos de novo e dei as costas. Fui para o bar. Peguei um guardanapo e uma caneta. Dei um selinho na minha amiga e agradeci por ela ser tão legal comigo. 

Enquanto atravessa a pista para ir embora, fiz um pit stop em frente ao casal. O fulano não entendeu nada. O encarei por alguns segundos. Senti vontade de espancá-lo, mas a fúria passou quando a olhei nos olhos. Dei um sorriso bobo. Ela retribuiu com um sorriso tímido, envergonhado. Estiquei o guardanapo. Ela o segurou e não conteve o sorriso mais aberto. Suas bochechas ficaram coradas e seus olhos brilharam, retribuindo meu olhar apaixonado. 

– Me liga.

– Vou ligar. 

Continua…

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Lembrança Amar…ela

Imagem de Igor Alecsander - http://www.igoralecsander.com

Estava numa cadeira de rodas sendo empurrado em direção a um corredor estreito, mas muito iluminado. Meus olhos só enxergavam o clarão, meu coração estava a mil por hora, minhas mãos estavam dormentes, não tinha controle sobre elas, meus dedos pareciam que estavam atrofiando. Minha respiração estava acelerada e eu tremia descontrolado. Não podia ser. Aquilo não estava acontecendo. Fiquei enjoado. Um gosto ruim subiu para minha boca e eu quase vomitei. Estava muito tonto. Queria levantar daquela cadeira maldita, mas não sentia minhas pernas. Alguém segurou minha mão. Olhei para frente e vi uma coisa amarela. A visão mais linda. A camiseta era da cor do fusca. Eu chorava e sorria. Acho que vou morrer. 

“Não se preocupe. Não vou te abandonar”. 

Mentira. 

A vi pela primeira vez em um boate. Ela estava acompanhada de duas amigas, encostada na parede perto do balcão do bar. Não tinha quem não as olhasse. Na verdade, todos a olhavam. Morena, cabelos castanhos na altura dos ombros, pele branquinha, dona de um rosto delicado, com um sorriso tímido e olhar meigo. Parecia uma princesa. Talvez por isso, todos olhavam, mas ninguém se aproximava. Até que larguei meu St. Remy com cereja e caminhei até ela. Dizem que St. Remy com cereja é bom pra beijar. Por que não tentar? 

– Meu nome é Pedro. Qual seu nome?

– Laura.

– Oi Laura. Tá vendo aqueles caras que não param de olhar pra cá? – Ela deu uma espiada de lado. – Eles são meus amigos. Todos querem seu telefone, mas não têm coragem de vir aqui pedir. Então pensei que se eu viesse até aqui, você se sentiria comovida com minha coragem, e, quem sabe, me daria o número do seu telefone.

– Tudo bem.

– Tudo bem? – Ela me deu um olhar suspeito e fez um gesto sutil de aprovação com a cabeça – Então tá. Vou pegar uma caneta. 

Anotei seu telefone em um guardanapo e me despedi com três beijinhos e um “muito prazer”. Cumprimentei suas amigas e sai fora. Em seguida fui até meus camaradas e lhes entreguei o papel. “Não acredito”, um deles falou, “O número deve ser falso”, disse o outro. “Ela te deu mole mesmo, ou ficou afim de um de nós?, perguntou um terceiro.  “Não sei”, respondi. “Apenas cheguei lá, me apresentei, pedi o telefone dela e ela me deu. Podem ligar se quiserem.” – Dei as costas e voltei para meu St. Remy

Não sei o que me motivou a ter aquela atitude. Talvez eu só quisesse me aparecer, provar que era o melhor, que poderia ter a menina que eu quisesse. Mas a verdade, é que não me interessei. Aquela noite eu só queria encher a cara e paquerar a barwoman que sempre me dava bebidas de graça. Existe uma mulher melhor do que aquela que te dá bola e que sustenta seu vício? 

Os dias passaram, o tédio tomou conta de mim. Comecei a sair com uma amiga da minha irmã, mas era só para passar o tempo. Renata tinha fama de assanhada e era exatamente o que eu precisava naquele momento. Uma menina bonita e fogosa que não queria compromisso. Tudo ia bem, até que o Roberto me ligou. 

– E aí Pedro, beleza?

– Fala Roberto! De boa. O que contas?

– Lembra aquela ‘mina’ que você pegou o telefone na balada?

– Mais ou menos. O que tem?

– Liguei pra ela e marcamos de sair. Falei que você ia junto.

– Bacana. Afinal, o número era verdadeiro. Você se separou da Alessandra?

– Não.

– Você não presta.

– Elas não precisam saber.

– Me pega as sete. A Renata vem pra cá. Bye!

– Fechou. 

No horário combinado o Roberto apareceu. Estava sozinho. Preferiu me pegar primeiro, pois achou que… Sei lá o que ele achou. Me sentei no banco de trás do carro com a Renata, enquanto o Beto fazia a vez de chofer. Chofer de um fusca amarelo 1975. Clássico. Pena que nos deixava na mão na maioria das vezes. 

A Renata estava no pique. Foi só o Beto ligar o fusquinha que ela veio pra cima de mim e começamos a dar uns amassos. Quinze minutos de safadeza e chegamos ao prédio onde morava a futura amante do Beto. Ele desceu do carro e foi até a portaria. Mais cinco minutos de pegação e ela desceu. Tentei ver quem era, mas a Renata não saia de cima. A empurrei delicadamente e olhei pelo vidro traseiro do carro. Eles estavam meio longe e não consegui ver direito. Resolvi sair do carro. Não consegui segurar a risada. 

– Não acredito. – Falei sozinho – Ela está usando uma camiseta da cor do fusca. Mas não é a mesma menina que peguei o telefone. Esta tem cabelo ‘joãozinho’. Será que é ela? 

Era. 

Conforme eles foram se aproximando, meu coração disparou. Aquele rosto de princesa… Tinha certeza. Era ela. O cabelo tinha mudado, mas o sorriso tímido e o olhar meigo eram os mesmos. Ela vestia calça jeans, um All Star branco surrado e aquela camiseta amarela que combinava com o carro. Ah, aquela cor jamais sairia da minha cabeça. 

Sorri como um bobo. Foi amor à segunda vista. 

Continua…

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Aconteceu no elevador (parte final)

Casal no elevador

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Fiquei semanas imaginando como seria tê-la em meus braços, pensando se ela sentia algo por mim, fantasiando como seria o primeiro beijo, que, enfim, aconteceu no elevador. Foi um beijo fabuloso, que durou poucos segundos, mas foi o suficiente para inundar minha mente de possibilidades, de incertezas, de ansiedade. Poucos segundos que mudariam nossa rotina. Não tenho certeza se a peguei de surpresa. Prefiro pensar que ela já esperava por isso, que ela desejava que acontecesse. Dúvidas a parte, tive a certeza de que, durante três andares, minha paixão foi correspondida. 

A porta do elevador se abriu, ganhei um sorriso e um aceno com a cabeça para me lembrar que tínhamos que sair. O silêncio que se seguiu indicava que estávamos selando um pacto, e que a partir daquele momento compartilhávamos um grande segredo. O tchau daquela noite também foi dado com um aceno, seria um pecado estragar aquele momento com palavras.

Os dias foram passando, os olhares continuavam, os sorrisinhos foram se intensificando e nossa amizade, agora, era apimentada com idas e vindas no elevador. Sempre o da direita. Era nosso ritual. Por sorte, ou ajuda do destino, ele sempre estava vazio. Também dávamos nossa contribuição, demorando alguns minutos para ir embora. Conhecíamos a rotina dos colegas de trabalho, então era mais fácil dar um perdido. 

A vontade que eu tinha de largar o emprego foi substituída por uma vontade louca de crescer dentro da empresa. Entre um olhar e outro, eu desenvolvi campanhas que dariam muito lucro à agência. Nos corredores já corriam os rumores de uma possível promoção. Fiquei empolgadíssimo, mas nada me deixava mais feliz do que estar com ela. Minha inspiração vinha dela. 

Chegamos a uma fase em que o elevador não era o suficiente. Passamos a nos beijar nos corredores, no refeitório, na sala de arquivo, no banheiro… Enfim, em qualquer lugar que encontrássemos vazio por determinado tempo. É lógico que tínhamos medo de ser pegos. Mas acho que isso nos deixava ainda mais excitados. Sempre que possível, também nos encontrávamos fora da empresa. Parecíamos namorados, trocávamos presentes, bilhetes, mensagens de texto. Tudo o que um casal apaixonado faz no começo de um relacionamento. Falávamos sobre quase tudo. Com exceção de um pequeno detalhe: ela continuava noiva. 

Eu tinha medo de falar a respeito, não queria pressioná-la e colocar em risco o nosso romance. Eu precisava daquilo, não queria perdê-la, mesmo que isso significasse ser o outro. No fundo, eu tinha esperança que, entre o terceiro andar e o térreo, ela dissesse que me amava e que ficaria apenas comigo. 

Faltando um mês para seu casamento, meu sentimento de euforia se transformou em desespero. E tudo piorou quando fomos flagrados por um colega de trabalho. Um cara que trabalhava no administrativo, que fica no 13º andar, e que de vez em quando descia até nosso piso para recolher alguns documentos. Ele era meio esquisito. Estava há anos na agência, mas não conseguia ser promovido. Ele nos viu juntos em uma rua próxima a empresa. Passou por nós, fez cara de surpreso, deu um sorriso sem graça e continuou andando. Ficamos desesperados. Como podíamos ter dado um vacilo tão grande? 

Quando entramos na empresa achando que seriamos interrogados, nos surpreendemos. Nada estava diferente. Ninguém nos olhou torto, não percebemos nenhuma fofoca que nos incluísse. Bem, nosso colega era um cara que sabia guardar segredo. Na verdade, aquele foi o último dia que o vi. Fiquei sabendo que, sem mais nem menos, ele juntou suas coisas, entrou na sala do chefe e em menos de 10 segundos foi embora sem dar satisfação. Ouvi dizer que ele surtou. Parece que limpou a conta no banco, bateu na mulher e sumiu no mundo. Deve ser fofoca. O que sei é que depois do flagrante que ele nos deu, passamos a ser mais cuidadosos. 

Três dias depois, uma nova surpresa. 

Saímos do elevador e seguimos pelo corredor em direção à rua, tínhamos combinado de comprar um vinho e depois irmos para minha casa. Mas, assim que pisamos na calçada, perdi o chão. Um rapaz moreno a esperava com um buquê de flores. Ela deu um gritinho mascarado de alegria e surpresa, enquanto suas bochechas ficavam vermelhas de vergonha. Um rápido olhar suplicou para que eu sumisse dali. Foi o que fiz, logo após ver o cara tocando os lábios que a pouco pertenciam aos meus lábios. Senti-me um nada. 

No dia seguinte, as coisas mudaram. Os olhares cessaram, os sorrisos se esconderam, a euforia virou desespero. A ficha caiu. O noivo, que até então era apenas uma figura folclórica (o corno), deu as caras e me mostrou que era real. 

Acho que a vergonha a fez se afastar de mim. Mas talvez ela apenas tenha percebido que cometeu um grande erro. Como poderia trair o noivo nas vésperas do casamento? Eu deveria estar cheio de culpa, mas não estava. Eu a queria pra mim. Eu queria beijá-la, abraçá-la, dizer que eu era o homem certo para ela. Dizer que eu estava apaixonado e que ela deveria se casar comigo, e não com aquele cara que dá flores de presente. Eu precisava de uma oportunidade para lhe dizer tudo isso, e a oportunidade veio quando a bexiga dela apertou. 

 – Você é louco? Se o chefe ver que você entrou no banheiro feminino você é mandado embora.

– Não faz mal. Eu preciso falar com você.

– Então fecha a porta e fala. Seu bobo…

– Por que você está diferente comigo?

– Não estou.

– Está sim. É por causa do seu noivo? Porque eu não ligo. Quero ficar com você. Não importa que você vai se casar. Na verdade, eu quero que você case comigo.

– Realmente você está louco. Não posso me casar com você, nós mal nos conhecemos. E tem outra. Eu não posso fazer isto com ele. Estamos juntos há muito tempo.

– O tempo não importa. Se você fosse feliz com ele não tinha ficado comigo.

– Escuta. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu gosto de você, de verdade. Adoro ficar com você. Mas a vida não é tão simples. Ele foi meu primeiro namorado sério. Minha família o adora. Eu não posso sem mais nem menos o largar para ficar com um cara que mal me conhece. Que não conhece minhas manias, meus defeitos.

– Para mim, você não tem defeitos.

– Estou dizendo que você não me conhece… Desculpa magoá-lo, mas eu vou me casar. E não vai ser com você. É melhor você sair. Ainda quero usar o banheiro. 

Sai do banheiro arrasado. Jurava que ela sentia algo por mim, mas percebi que fui usado. Eu não passei de uma despedida de solteira. Meu coração ficou despedaçado. Fui para o banheiro (desta vez o masculino), me tranquei e chorei. Quarenta minutos depois, voltei à minha mesa e fingi trabalhar. 

Os dias foram passando, o casamento dela se aproximando e minha vida perdendo o sentido. Sei que parece um drama pastelão, mas ela realmente mexeu comigo. Eu voltei a considerar a possibilidade de mudar de emprego. Não estava conseguindo conviver com o fato de olhar para o lado e não ter ninguém olhando de volta. Era como se nada tivesse acontecido. Como se ela nunca tivesse vindo à minha mesa sugerindo que eu fosse gay. 

Faltando três dias para ela se casar, eu já tinha me convencido de que tudo não passara de uma aventura pré-matrimonial. Que assim como ela, eu também encontraria uma pessoa para passar o resto da vida. Então, comecei a orar para que ela fosse feliz, para que não faltasse amor em sua vida. Desejei do fundo do coração que ela amasse e que fosse amada. E quando você deseja muito alguma coisa, o universo conspira para que tudo se realize. 

Olhei para o lado. Ela não estava mais na mesa. A movimentação do fim de expediente já tinha começado e todos corriam para o elevador. Ameacei correr, mas desisti. Alguns segundos depois o elevador da direita chegou. Estava vazio. Apertei o botão do térreo e quando me virei recebi um beijo. Um beijo com gosto de morango. Um beijo apaixonado, quente, excitante, molhado, sufocante… 

Queria que este beijo nunca tivesse acontecido. Durou poucos segundos, mas parecia uma eternidade. Um beijo de despedida. Um beijo que até hoje me faz morrer de saudade. 

FIM

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Aconteceu no elevador

Aconteceu no elevador

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Três andares, os segundos são eternos. Aperto o botão, e quando a porta do elevador está se fechando… o beijo. Ah… aquele beijo… Queria que nunca tivesse acontecido. 

Estava sentado em frente ao computador, minha mesa era uma bagunça. O trabalho era uma droga, e eu já estava prestes a enlouquecer. Até que uma coisa aconteceu. Ela aconteceu. Lembro de ver o tempo parar. As pessoas estavam imóveis. Toda a agência de publicidade parou enquanto ela caminhava em câmera lenta. Demorei quase um minuto para voltar a respirar. 

Como o universo sempre conspira para ferrar sua vida, ela ficou com a mesa ao lado da minha. Um corredor de 1,80m de largura era o que a distanciava de mim. Se eu virasse um pouco o pescoço, era possível ver seus longos cabelos negros, que de tempos em tempos eram suavemente acariciados por sua mão esquerda e estrategicamente colocados por detrás da orelha, fazendo com que sua bochecha rosada ficasse a mostra, ao mesmo tempo em que uma pequena mecha cobria parte de seu seio. 

Seu cheiro era maravilhoso. Ela estava tão próxima, que eu nem precisava respirar fundo para sentir o aroma cítrico de seu perfume. Sem falar no brilho que usava para destacar ainda mais seus lábios carnudos. Eu jurava que o brilho tinha gosto de morango. 

Sem me dar conta, já estava a encarando há alguns minutos. Ela percebeu e também me olhou. Seus olhos eram castanhos. Fiquei com vergonha e desviei o olhar. Ela não. Olhei de relance e vi que ela ainda me olhava. Não pode ser… Ela levantou e caminhou em direção ao bebedouro. Que bunda… 

Os dias foram passando e meus projetos iam se empilhando na mesa. Não fazia mais nada, além de admirá-la. A rotina era: eu a olhava, ela me encarava, eu desviava o olhar. Depois eu olhava de relance, ela continuava me encarando e eu novamente disfarçava. É, era difícil mudar a estratégia. Como eu era um laranja, ela tomou a iniciativa. Gelei quando ela parou em frente a minha mesa. 

– Posso te fazer uma pergunta?

– Outra?

– Engraçadinho… Por que você não para de me olhar?

– Eu? Não sei. (Droga, ela deve pensar que eu sou um tarado). Mas você também me olha.

– Lógico! Você não para de me olhar. Você é gay?

– O quê? Gay? Não, não. Por que você acha que sou gay?

– Sei lá! Você me olha diferente. Não é como outros caras, que só olham minha bunda. Você me olha nos olhos e isso chamou minha atenção.

– Sou gay por que não olho para sua bunda? (pois já olhei e achei maravilhosa).

– Não, não é isso. Só achei seu jeito diferente e fiquei curiosa. Mas deixa pra lá.

– Você tem namorado? – perguntei por impulso. 

Ela respirou fundo, fez um bico, levantou as sobrancelhas, me olhou por alguns segundos e… 

– Sou noiva. Namoro há seis anos e vou me casar daqui três meses. 

Pronto! Seríamos amigos, no máximo. Isso, se eu não morresse de tédio antes. 

A semana seguinte serviu para conversamos e nos conhecermos melhor. Em pouco tempo percebemos que não tínhamos nada em comum, a não ser a grande necessidade de trocar olhares durante todo o dia. Mas isso não era o suficiente. Eu queria mais. Precisava de mais. Só não sabia o que fazer. Ela tinha alguém, ia se casar em poucos meses. Eu não tinha o direito de estragar isto. Pior, não tinha coragem. 

Mais um dia estava acabando, o que significava que o casamento dela estava cada vez mais perto. As pessoas desligavam seus micros e caminhavam em direção aos elevadores. Fui o penúltimo a sair, ela foi a última. O elevador da esquerda chegou. Apressadas, as pessoas correram. Ameacei correr, mas a vi caminhando em câmera lenta. Deixei a porta se fechar. Ela deu um sorriso, enquanto o elevador da direita chegava. 

Bem, quando você quer muito alguma coisa, o universo conspira para ferrar com sua vida. Pode chamar isso de Destino. 

A porta do elevador se abriu. Estava vazio. Cavalheiro que sou, dei passagem para que ela entrasse primeiro. Ainda de costas, ela apertou o botão do térreo. Eu entrava no elevador, enquanto ela se virava. A porta se fechava, e eu me enchia de coragem. Ela se virou, me olhou bem nos olhos. Respirei fundo, a puxei pela cintura e a beijei.

Sua boca tinha gosto de morango. 

Após tanto tempo nos olhando, enfim, estávamos com os olhos fechados. O beijo era apaixonado, quente, excitante, molhado, sufocante… 

Descemos três andares. Os poucos segundos pareciam eternos. Queria que este beijo nunca tivesse acontecido.

Continua…

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